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ESPECIAL Trilhas da BNCC | Matemática, outras áreas e os desafios do século XXI

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Fábio Martins de Leonardo

Fábio Martins de Leonardo

Resolver problemas, analisar dados e tomar  atitudes criativas no dia a dia.

Texto Fábio Martins de Leonardo

É comum encontrar pessoas que dizem não saber ou não gostar de matemática. Esse fato provavelmente é uma consequência do modo equivocado como essa ciência é ensinada nas escolas brasileiras: um estudo quase sempre segmentado e conteudista, carente de formação de professores e vulnerável à inconsistência do sistema educacional.  A matemática é uma das mais significativas conquistas do conhecimento humano, produzida e organizada ao longo da história por diversos povos e civilizações. É uma ciência que contribui para a compreensão, tradução e modelagem de situações em diversas áreas do conhecimento (astronomia, medicina, engenharia, arquitetura, arte e tecnologia da informação são alguns dos exemplos, só para se ter uma ideia). Além disso, vale ressaltar sua importância nas práticas cotidianas, como para a compreensão e tomada de decisões em situações financeiras, para a leitura e interpretação de gráficos e tabelas encontrados nos noticiários, para a elaboração de estimativas e inferências com base em análise de dados e para o desenvolvimento de estratégias de resolução de problemas, argumentação e exposição de ideias.  Ao estudar matemática, desenvolvemos competências, habilidades e atitudes tão imprescindíveis ao mundo do trabalho quanto à vida cotidiana. Por exemplo: planejar ações e projetar soluções para novos problemas de mercado, que exijam iniciativa e criatividade; compreender e transmitir ideias matemáticas, por escrito ou oralmente, desenvolvendo a capacidade de argumentação na sustentação de projetos; interpretar matematicamente situações do dia a dia ou do mundo tecnológico e científico e saber utilizar a matemática para resolver situações-problema nesses contextos; avaliar os resultados obtidos na solução de situações-problema para definições, por exemplo, de estratégias de marketing; fazer estimativas de resultados ou cálculos aproximados; utilizar os conceitos e procedimentos estatísticos e probabilísticos. No artigo “O pensamento computacional e a reinvenção do computador na educação”, Paulo Blikstein, professor na Escola de Educação e no departamento de Ciência da Computação da Universidade de Stanford nos EUA, discorre sobre as exigências do nosso mundo. “(…) o mundo atual exige muito mais do que ler, escrever, adição e subtração. A lista de habilidades e conhecimentos necessários para o pleno exercício da cidadania no século XXI é tão extensa quanto controversa. Não sabemos muito bem quais são essas habilidades, muito menos como ensiná-las.” Na sequência, ele fala da importância do “pensamento computacional” e sobre o ensino de ciências. “Felizmente, nossas pesquisas têm mostrado que os alunos aprendem ‘ciência computacional’ mais facilmente do que ciência tradicional, por uma série de fatores cognitivos, epistemológicos e motivacionais. Boa parte da ciência e da matemática que ensinamos na escola foi inventada porque não tínhamos computadores, e seu aprendizado é desnecessariamente difícil, afastando qualquer aluno mais criativo. Portanto, a habilidade de transformar teorias e hipóteses em modelos e programas de computador, executá-los, depurá-los, e utilizá-los para redesenhar processos produtivos, realizar pesquisas científicas ou mesmo otimizar rotinas pessoais, é uma das mais importantes habilidades para os cidadãos do século XXI. E, curiosamente, é uma habilidade que nos faz mais humano. Afinal, o que há de mais humano do que livrarmo-nos de tarefas repetitivas e focar no mundo das ideias?” Não são poucas as competências, habilidades e atitudes necessárias para o exercício da cidadania no século XXI, para o enfrentamento do mundo do trabalho e para a imersão no mundo da tecnologia. Atualmente, desenvolver o raciocínio lógico, a autonomia e a criatividade é mais importante do que aprender conteúdos. Nesse contexto, o professor é imprescindível para ajudar os alunos em seus percursos com foco onde querem chegar, ajudá-los a selecionar as informações que de fato precisam, prepará-los para o mundo como um todo, inclusive o do trabalho, tornando-os cidadãos críticos, criativos e autônomos.

Fábio Martins de Leonardo

é licenciado em Matemática pela Universidade de São Paulo. Elaborador e editor responsável da obra Conexões com a Matemática (PNLD 2018).

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Boas práticas para uma parceria de sucesso

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Taís Bento e Roberta Bento

Taís Bento e Roberta Bento

Dicas para ajudar a florescer uma relação sólida com pais e responsáveis, com foco na formação integral dos alunos.

Texto Taís Bento e Roberta Bento – Foto Ricardo Davino

Cada vez mais a relação da família com escola se torna essencial para que os alunos consigam aliar o prazer pelo aprendizado às habilidades que são fundamentais para uma formação integral. Hoje, os alunos de todas as faixas etárias têm uma relação negativa com os estudos. Ao mesmo tempo que os pais e responsáveis reconhecem a importância do aprendizado formal e veem a escola como fundamental para o desenvolvimento pleno de seus filhos, eles depositam exclusivamente na instituição a cobrança para que os alunos se envolvam com os estudos. Quando os pais se veem em situação de estresse, seja na hora da lição de casa, no momento em que recebem o boletim com notas baixas ou quando enfrentam problemas de comportamento, geralmente, procuram o culpado na escola: a metodologia aplicada, o material didático, a coordenação, o professor e, até mesmo, os colegas de sala. No desespero, cobram mudanças por parte da escola ou acabam por matricular o filho em outro colégio. Frustração generalizada quando os problemas voltam a se repetir, em intensidade cada vez maior, quanto mais o aluno cresce ou avança nas etapas de ensino. Tanto a escola quanto as famílias acabam reféns de um círculo vicioso em que cada qual espera do outro soluções para questões cujas respostas estão na ação conjunta. 

 

Quem tem o maior poder

 

Para envolver o aluno no processo de aprendizagem: família ou escola?Imagine que a mudança de postura para que os alunos possam gostar de aprender e ter melhor desempenho nos estudos seja uma porta. A família tem a fechadura e a escola possui a chave. Quem abre a porta é o aluno, mas somente se e quando fechadura e chave estiverem disponíveis. Ao ajustar a rotina da família para que, desde o nascimento, os filhos desenvolvam habilidades como paciência, capacidade de lidar com frustrações e autoestima, os pais cumprem seu papel de preparar a criança para o processo de aprendizagem formal. Ao manter formação continuada como parte da rotina da escola, gestores garantem que os professores terão as ferramentas para ajudar cada aluno a encontrar caminhos para desenvolver todo seu potencial. Nem família e nem escola conseguem sozinhas levar as crianças ao seu desenvolvimento pleno. Quando nós, os adultos de hoje, éramos crianças, tínhamos uma rotina muito diferente daquela que nossos filhos têm hoje. Os momentos em família ajudavam para que as habilidades básicas necessárias para uma boa relação com os estudos fossem desenvolvidas em casa. Enquanto esperávamos a semana toda pelo nosso programa predileto e negociávamos o canal de TV que todos assistiriam juntos, desenvolvíamos habilidades como paciência, empatia e persistência. Desde muito pequenos, aprendíamos a dividir com outros irmãos a atenção de nossos pais. Compartilhar brinquedos, guloseimas e espaço na mesa era um pressuposto que fazia parte da vida de uma criança ou adolescente. Esses momentos sumiram da rotina familiar. Ao mesmo tempo que diminuíram em tamanho, as famílias têm menos tempo compartilhado para conversas e atividades. Somada a todas essas mudanças, vieram a correria do dia a dia e a necessidade desvairada de fazer diversas atividades simultaneamente: conversar ao telefone enquanto assiste à televisão, pagar contas on-line enquanto cozinha ou resolver questões de trabalho enquanto dirige. Há uma premissa básica aqui: crianças aprendem pelo exemplo, ou seja, seguem os passos dos pais. Nessa dinâmica em que tudo acontece ao mesmo tempo, restringem-se as oportunidades para desenvolver habilidades fundamentais para os momentos de estudo como senso de responsabilidade e a capacidade de foco e concentração. Assim, é urgente que tais oportunidades sejam inseridas na rotina das famílias para que os filhos possam desenvolver em casa as competências que servirão de base para novos conhecimentos, habilidades e atitudes que então a escola ajudará a aprimorar. 

A escola, por outro lado, enfrenta enormes desafios para conseguir envolver o aluno que chega sem esses estímulos. A saída está na união de forças. Cabe à família ajustar a rotina para que os filhos aprendam em casa a focar em uma atividade de cada vez. Assim, ao chegar à escola, as crianças estarão completamente presentes, com toda atenção disponível. À escola, cabe ajudar os pais a compreender a importância do estímulo dessas habilidades dentro do contexto familiar e indicar quais rotinas favorecem tal desenvolvimento. Além disso, a formação continuada de professores é primordial. O docente precisa ser capaz de ajustar cada momento da aula de forma que alunos diferentes, com níveis diversos de habilidades e interesses sejam envolvidos. As ferramentas, estratégias e respostas que podem ajudar nesse desafio são frutos de pesquisas muito recentes. Sem atualização constante, o trabalho do professor torna-se uma missão impossível!

 

Família e Escola juntas: único caminho para o desenvolvimento das competências proostas pela bncc

 

Há inúmeros pontos a serem discutidos sobre a Base Nacional Comum Curricular. Sem dúvida, existem aspectos polêmicos e outros que poderiam – e esperamos que sejam – melhorados. Não seria justo, contudo, deixar de falar sobre um dos maiores benefícios que essa nova proposta traz para a educação de nosso país: o foco nas competências. Este é o caminho para levar a educação formal a se aproximar cada vez mais das necessidades dos alunos e da sociedade moderna. Sai do holofote o conteúdo, entram as competências com foco no desenvolvimento humano integral dos alunos. Para cada competência existe um composto que envolve conhecimentos, habilidades e atitudes de uma pessoa. Não é pequeno o desafio da escola para garantir que seus alunos desenvolvam as dez competências gerais propostas pela bncc. Os resultados positivos, tanto no envolvimento do aluno como na sua formação integral, dependem cada vez mais da integração entre família e a escola. Isso vale não somente para o desenvolvimento das competências propostas pela bncc, mas também para outras que são alicerce sobre o qual as novas competências fincarão raízes para florescer em momentos diferentes para cada aluno. Muitos processos que, até então, eram assumidos pela escola terão o envolvimento da família para o sucesso do aluno. Avaliação é um exemplo. Se a competência pressupõe também habilidades e atitudes, é necessário avaliar o aluno em diferentes situações e momentos de sua vida. Só assim é possível compreender em que ponto ele está e quais são as necessidades a serem trabalhadas. O comportamento perante sua família e sociedade devem compor seu processo de avaliação. Por esse motivo, é tão importante comunicar às famílias sobre as mudanças, seus benefícios e sobre como os pais são capazes de colaborar para o sucesso da bncc, beneficiando o aluno, a escola, a família e toda a sociedade.

 

Quais comportamentos a família deve evitar?

 

Algumas atitudes dos pais e responsáveis podem prejudicar a relação que o filho tem com os estudos. Em geral, as famílias não se dão conta da postura e das mensagens que estão passando. Alertar para esses pontos pode ser o suficiente para que a parceria com a escola tenha sucesso ao longo de todo o ano letivo. Listamos abaixo algumas práticas que temos visto em escolas e que podem ser trabalhadas para melhorar a relação das crianças e adolescentes com os estudos:

  • 1. Querer que a escola se adapte à rotina que a família tem em casa.
  • 2. Tentar determinar as dificuldades que o aluno vai ter e se antecipar ao esforço do filho para que consiga mudar padrões estabelecidos.
  • 3. Justificar falta de envolvimento com problemas já resolvidos ou com limites que colocados pelo próprio bem do aluno. Exemplo: “ele não gosta de vir para a escola porque a professora do ano passado ficou brava quando ele bateu no colega.”
  • 4. Fazer comentários negativos sobre o professor, escola ou colegas de classe na frente do filho.
  • 5. Resolver questões simples que a própria criança poderia abordar com professores ou colegas.
  • 6. Cobrar da escola vigilância sobre comportamentos que são responsabilidades do aluno e dos pais. Exemplo: Pedir para a professora que não deixe o filho comprar determinado lanche na cantina.
  • 7. Pedir que a escola mude regras ou calendário de atividades para não frustrar o filho. Exemplo: mudar a data da festa junina porque o filho tem outro compromisso.

 

Como as famílias podem ajudar o trabalho da escola?

 

  • 1. Aproximar alunos que geralmente não se relacionam bem dentro de sala de aula. Está comprovado por estudos recentes da Neurociência Cognitiva que o relacionamento com os colegas de classe tem altíssimo impacto na aprendizagem. Encontrar colegas fora do contexto escolar, em situações organizadas pelas famílias, nos finais de semana ou fora do horário da aula, ajuda na criação de laços de amizade, tornando o ambiente da sala de aula e da escola altamente favorável para o aprendizado.
  • 2. Inserir a leitura e a escrita na rotina da família. Praticar a escrita em momentos de lazer e diversão em família é fundamental na fase de alfabetização. Mais que isso, incluir leitura e escrita no dia a dia da rotina doméstica é o único caminho para que os alunos possam desenvolver todo seu potencial ao longo da vida acadêmica. Somente a escola não consegue ajudar o aluno a criar o hábito e o gosto pela leitura. A criança aprende pelo exemplo, não se esqueça disso!
  • 3. Estabelecer uma rotina familiar equilibrada. A rotina dentro de casa afeta o desempenho escolar. A família deve garantir três elementos críticos no dia a dia para o sucesso na aprendizagem formal: atividade física, noites completas de sono e revisão diária dos conteúdos estudados na escola.
  • 4. Ter uma postura positiva em relação aos estudos e à escola. Quando o aluno sente que sua família não confia na escola, passa a agir de forma a colocar professores e pais em campos opostos, além de, inconscientemente, replicar a postura negativa na sua relação com os estudos.
  • 5. Participar ativamente da vida escolar e estabelecer parceria com coordenação e professores. As famílias precisam confiar no trabalho da escola para que possam se aproximar do dia a dia que seus filhos têm na escola. É preciso que a escola seja clara e assuma o compromisso com os conteúdos e a qualidade das aulas. Muitos pais sentem medo por não dominarem os conteúdos que os filhos estão aprendendo, mas precisam estimular a responsabilidade que os alunos devem assumir em relação ao seu processo de aprendizagem. Trabalhando juntos ao longo de todo o ano, professor, coordenação e pais olham na mesma direção: a formação integral do aluno/filho.

 

Inclusão: um benefício para alunos, famílias e escolas

 

Quando a escola assume de fato seu papel no processo de inclusão, a mudança para melhor acontece em todos os aspectos e atinge todos os alunos, professores e famílias. Adaptar uma aula ou um conteúdo para alunos com diferentes necessidades é uma arte que se aprende. É uma habilidade que se desenvolve e na qual a pessoa se torna expert quanto mais a pratica. A luz vem quando a visão sobre o processo já foi ampliada o suficiente para que escola e famílias entendam que todos os alunos têm necessidades especiais.

Pais e escolas que valorizam a diversidade conseguem beneficiar o crescimento cognitivo e emocional de seus filhos/alunos. “Pais de filhos com alguma necessidade especial?” Não, pais de filhos e ponto final. Há escolas que fazem um trabalho sério, lindo de se ver e que, pasmem, acabaram por descobrir que os grandes beneficiados são os alunos que, a princípio, não precisariam de adaptação do material ou plano de aula. Essas escolas não descansam jamais. Seguem na busca por caminhos para cumprir seu papel de ensinar, educar e, principalmente, transformar. Um ponto comum entre elas: não fazem o trabalho sem a participação dos pais, das famílias. “Das famílias de filhos de inclusão?” Não, das famílias! Não importa quem seja o filho, ele será beneficiado se a escola estiver fazendo um bom trabalho e se responsáveis e educadores, estiverem plenamente envolvidos.

 

GRUPOS DE PAIS NO WHATSAPP

 

A nova tendência entre pais de alunos de todas as idades é formar o Grupo de Pais da Turma no WhatsApp. Conforme a ideia foi se transformando em “febre”, perdeu-se também a mão em relação ao que pode ou deve ser discutido ou compartilhado. Rapidamente, esses grupos no WhatsApp se transformaram em geradores de conflito na relação entre pais de uma mesma turma e na relação das famílias com a escola. Com algumas boas práticas de convivência, é possível aproveitar esse recurso para o bem geral da nação escolar e manter o foco nos benefícios que a tecnologia trouxe para a interação entre os pais:

  • 1. O grupo não é um tribunal e os pais e responsáveis não são advogados dos filhos. Na ânsia de proteger a criança, as famílias aproveitam o grupo para falar sobre questões que os próprios filhos poderiam resolver na escola. E assim, contratempos que fazem parte da convivência escolar se transformam em enormes tempestades. A escola, muitas vezes, acaba sendo cobrada quando o assunto já virou briga envolvendo famílias que deveriam dar aos filhos o exemplo de relações sociais saudáveis.
  • 2. A escola não é um condomínio. Ouvimos com frequência reclamações das famílias sobre como assuntos que deveriam ser privados acabam se tornando públicos. O grupo é usado para confirmar suspeitas sobre o comportamento de outras crianças, reclamações sobre a tarefa ou sobre o professor. A escola é acionada depois que um contratempo já se transformou em um enorme problema e os pais já começam a conversa com a escola, afirmando que há vários outros pais que podem testemunhar seja lá qual for o assunto. Afinal, quem precisa de testemunha quando está disposto a conversar sobre um assunto importante?
  • 3. Esteja presente. Sair do grupo ou se recusar a participar não é a melhor opção. Estar presente, ainda que virtualmente, em um ambiente onde se pode conversar com outros pais que vivem dilemas muito parecidos com os seus pode ajudar muito no dia a dia. Além disso, está comprovado que as relações sociais impactam diretamente a capacidade de aprendizagem do aluno. Que tal usar o WhatsApp para marcar encontros divertidos entre famílias que têm tanto em comum?

 

Família e escola, vocês não estão sozinhos!

 

Em um momento em que o mundo está tão desafiador e com tantas mudanças, nem família e nem escola precisam ter todas as respostas e dar conta de tudo sozinhas. Para ajudar as escolas no papel de educar também as famílias para que juntos possam vencer o desafio de educar nossas crianças e adolescentes para o futuro totalmente desconhecido que terão, o SOS Educação traz diariamente dicas práticas em suas redes sociais, palestras e formações. 

Para saber mais

SOS Educação www.soseducacao.com.br

Taís Bento e Roberta Bento

Taís e Roberta Bento são mãe e filha, fundadoras do SOS Educação, site de educação do portal Estadão e responsáveis pela coluna Escola da revista Pais&Filhos. São palestrantes de grandes eventos de educação e viajam pelo país fazendo palestras para pais e formação para professores com o objetivo de estreitar a relação entre família e escola. São também autoras do livro “Socorro, meu filho não estuda!”

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Contra a pandemia das fake news, a vacina é a educação

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O combate às fake news passa por uma educação que forme leitores críticos, capazes de diferenciar textos jornalísticos de ficcionais e de ler texto, subtexto e contexto.

Texto Paulo de Camargo

As notícias falsas não respeitam os fatos, a ciência, tampouco os sentimentos ou a segurança das pessoas. Até mesmo durante a pandemia da covid-19, mentiras desumanas como fotos de caixões carregados apenas com pedras, falsos remédios e teorias conspiratórias que alimentavam discursos de ódio circulavam pelas redes sociais. O advento das fake news colocou um imenso ponto de interrogação entre os seres humanos e a busca pela informação confiável. Notícias falsas sempre existiram, é certo, mas nunca conseguiram ganhar tal aparência de verdade, nem circular de maneira tão veloz, varrendo o mundo no espaço de poucos minutos como agora. E, se está no mundo, também pertence ao universo da educação e das escolas, envolvendo as crianças, os adolescentes e suas famílias. Como lidar com esse fenômeno, que só tende a se agravar? Responder a essa pergunta é o desafio da pesquisadora e jornalista Januária Alves, coautora do livro Como não ser enganado pelas fake news (Moderna), parte da coleção Informação e Diálogo. Quando fez seu mestrado na USP, há 15 anos, sobre grupos de crianças que produziam jornais, Januária se aproximou do mundo da educomunicação – área que estuda as intersecções entre educação e a produção de informação. Desde então, vem se aprofundando neste tema que se tornou um desafio global e agora integra a Base Nacional Curricular Comum (BNCC). “O que há de novo nas fake news é a forma pela qual são produzidas e se proliferam”, afirma Januária, que vê os professores preocupados e se sentindo sem apoio para trabalhar uma área que desconhecem. As estratégias históricas, como discutir notícias em sala de aula, representam apenas um pequeno passo porque hoje, com as redes sociais, os alunos são produtores de informação. “É um trabalho de cidadania”, explica Januária, que participou da construção de um currículo de educação midiática para a Secretaria de Educação do Estado de São Paulo. É isso o que as escolas vêm sentindo na pele. Muitas vezes, circulam informações não apenas mentirosas, como prejudiciais para alunos, professores e outros profissionais da Educação. Há dois anos, o diretor de uma tradicional escola da Zona Sul carioca estava a caminho de seu sítio, quando começou a receber mensagens torrenciais sobre um caso de racismo na escola, o que nunca de fato acontecera. “Ficamos indefesos, tendo que explicar algo que simplesmente não tinha origem ou base em verdade”, lembra o diretor, que nunca esqueceu o episódio e prefere não se identificar. Apenas no segundo semestre do ano passado, duas tradicionais escolas, uma em São Paulo e outra em Belo Horizonte, sofreram com a divulgação de notícias falsas sobre supostos casos de assédio sexual. Ao final, nada foi comprovado, em nenhum dos casos, mas os traumas permaneceram.

 

Por que acreditamos?

 

Muitas vezes, as notícias são absurdas, mas mesmo assim ganham tração e circulam. Segundo Januária, as pesquisas mostram que as fake news possuem um forte componente emocional. “Uma notícia falsa tem 70% mais chance de circular do que uma verdadeira. Existe um fator sedutor que é o desejo humano de contar histórias de impacto”, diz a pesquisadora. Para causar esse efeito, o texto frequentemente usa termos exagerados, muitos adjetivos, tons de denúncia, traz apelos e chamados à ação, como “você tem que repassar isso”, “mande para o máximo de pessoas que puder”. Em uma reação de impulso, basta apertar o botão Enviar, e lá se vai a mentira para amigos, família e grupos de afinidades: mais veloz do que um vírus e, algumas vezes, mais prejudicial. Por isso, como explica Januária, o primeiro desafio da escola é ensinar a seus alunos as diferenças marcantes entre o texto jornalístico e o texto ficcional – que é a classificação das notícias falsas. Mais recentemente, um novo fenômeno veio somar à divulgação de notícias falsas: a sua transformação em um produto. Robôs – programas que simulam perfis reais de pessoas nas redes sociais – invadiram as redes sociais replicando notícias enganosas com determinados objetivos. “Há um movimento mais amplo hoje que é o da desinformação intencional, que está ligado ao descrédito das ciências”, diz Januária. Turbinadas por teorias conspiratórias, enxurradas de fake news atacam as instituições que produzem informação de credibilidade, como o jornalismo, a universidade, os cientistas e os sistemas eleitorais. É o caso das notícias que tentam dar asas à inconcebível teoria de uma Terra plana ou a que atribuiu a covid-19 a uma ação maquiavélica do governo chinês. Até mesmo o avanço tecnológico cria condições para uma nova geração de mentiras: a chamada deep fake news. Utilizando aplicativos de fácil acesso, pessoas com algum domínio de ferramentas digitais podem inserir em um vídeo qualquer fala de outra pessoa, com a mesma voz e simulando os movimentos da sua boca. Da mesma forma, pode-se distorcer fotos antigas, como se fossem recentes, e inserir informações falsas que gerem credibilidade, como dados e números, conferindo-lhe aspecto de verdade. “Pela maneira como são desenvolvidas essas fake news, fica mesmo difícil não embarcar”, explica Januária. A crescente complexidade do tema obriga a escola a dedicar mais tempo para utilizar melhores estratégias para trabalhar com os alunos. O Colégio Rio Branco, em São Paulo, dá atenção especial ao assunto. No dia 1 º de abril, tradicional Dia da Mentira e já durante o período de isolamento social, os alunos do 9º ano do Ensino Fundamental e de todo o Ensino Médio participaram da oficina virtual Mídia Digital, pra quê?, que debateu as fake news no contexto da pandemia. O encontro abordou a responsabilidade do uso das mídias digitais, a checagem de informação, o cuidado no compartilhamento e o combate à desinformação, e os alunos participaram de um desafio de checagem de notícias falsas e verdadeiras.

Para a pesquisadora Januária Alves, o trabalho pode começar na Educação Infantil, pois até as crianças já têm clara noção do que são notícias falsas. Em uma formação recente para a Secretaria Municipal de Educação, uma professora narrou sua experiência com o trabalho, durante uma roda de conversa. Perguntada se sabiam o que eram fake news, uma criança imediatamente levantou a mão e disse: “é notícia mentirosa e o celular da minha mãe está cheio delas!”. O exemplo mostra a importância de envolver a família nas discussões. A experiência pessoal já nos mostra, por exemplo, que grupos familiares são terreno fértil para a difusão de fake news. Além disso, as implicações da propagação de fake news já são enquadradas criminalmente, em um cerco que deve se apertar, com o avanço da legislação. Ao mesmo tempo, é preciso trabalhar com os professores de todas as áreas e a própria direção escolar. “Não se trata de escolher uma ou outra área para este trabalho, todos são responsáveis por formar para a cidadania”, diz Januária. Assim, cada vez mais, dotar esses futuros cidadãos de ferramentas contra as notícias falsas é essencial. “As fake news representam um ataque à democracia”, finaliza.

 

Ação internacional

 

Sim, um ataque à democracia. É por isso que a Organização Nações Unidas (ONU) vem se mobilizando internacionalmente, com iniciativas como a plataforma Verified, cujo objetivo é conter a propagação de notícias falsas sobre a covid-19 (http://shareverified.com). “Não podemos ceder nossos espaços virtuais a quem trafega mentiras, medo e ódio”, afirmou em seu lançamento o secretário-geral da ONU, António Guterres. “A desinformação se espalha on-line, em aplicativos de mensagens e de pessoa para pessoa. Seus criadores usam métodos de produção e distribuição mais experientes. Para combater isso, cientistas e instituições como as Nações Unidas precisam alcançar pessoas com informações precisas nas quais possam confiar”, disse. Assim como este, diversos sites de checagem rápida de informação, disponíveis em vários idiomas, estão sendo produzidos em parceria entre a mídia jornalística, organismos sociais e grandes empresas de telecomunicação. É o caso brasileiro da Agência Lupa, cujo foco é a caça às fake news, e mesmo de diversos grupos independentes que vêm se formando nas redes sociais. Nos últimos anos, a Unesco, agência da ONU voltada à educação, à ciência e à cultura, produz pesquisas e livros sobre o tema, em uma área denominada Alfabetização Midiática e Informacional (ou Media Literacy, em inglês). Em maio, a Rede Internacional de Escolas Associadas da Unesco, em Paris, promoveu um webinar com especialistas de diversas partes do mundo, envolvendo jovens ativistas e educadores, para discutir caminhos para fazer frente à propagação das notícias falsas. Para os especialistas participantes, o papel da educação é central, mas não deve se restringir ao campo da linguagem. Para o pesquisador Joseph Kahne, da Universidade da Califórnia, é preciso formar pessoas mais solidárias e empáticas. “Nós temos de dar às crianças oportunidades de prática, ajudando os outros, trabalhando com o mundo real. Todos temos responsabilidade sobre a desinformação”, defende. Nos últimos anos, a Unesco, agência da ONU voltada à educação, à ciência e à cultura, produz pesquisas e livros sobre o tema, em uma área denominada Alfabetização Midiática e Informacional (ou Media Literacy, em inglês). Em maio, a Rede Internacional de Escolas Associadas da Unesco, em Paris, promoveu um webinar com especialistas de diversas partes do mundo, envolvendo jovens ativistas e educadores, para discutir caminhos para fazer frente à propagação das notícias falsas. Para os especialistas participantes, o papel da educação é central, mas não deve se restringir ao campo da linguagem. Para o pesquisador Joseph Kahne, da Universidade da Califórnia, é preciso formar pessoas mais solidárias e empáticas. “Nós temos de dar às crianças oportunidades de prática, ajudando os outros, trabalhando com o mundo real. Todos temos responsabilidade sobre a desinformação”, defende. Da mesma forma, os sistemas educativos devem priorizar a educação científica, já que a própria ciência está sob ataque. Para a pesquisadora italiana, Stefania Gianini, deve se mostrar que a ciência é dinâmica e não produz verdades absolutas, mas baseia-se em métodos verificáveis. “É preciso falar sobre a origem da informação, a metodologia, sobre o que pode ser verificado, mostrando que ciência não é um edifício de verdades, mas tem métodos que todos devem conhecer”, lembrou. Quanto mais se torna complexo o tema, mais importante é investir na formação para diversificar estratégias e tornar o trabalho interdisciplinar. “É preciso formar um leitor crítico e analítico, com repertório, que consiga desconfiar e perguntar: quem se beneficiaria com isso?”, defende Januária Alves. Até porque as notícias falsas conversam entre si, espelham ações globais, como é o caso dos discursos de ódio. Para isso, é tão importante o professor de História, Geografia quanto o de Português, o de Ciências e o de Inglês. “Temos de avançar, e realmente fazer com que o aluno tenha repertório para ler o texto, entender o subtexto e analisar o contexto”, explica a pesquisadora. No final do dia, a melhor vacina contra as notícias falsas continua sendo a educação de qualidade.

 

PARA SABER MAIS:

Agência Lupa. Disponível em: mod.lk/alupa. Acesso em: 10 ago. 2020. AIDAR, F.; ALVES, J.C. Como não ser enganado pelas fake news. São Paulo: Moderna, 2019

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Formação de professores diante de um currículo em movimento

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Miguel Thompson

Miguel Thompson

Como garantir que os professores estejam inseridos nas constantes transformações dos currículos escolares em um contexto tão complexo quanto o brasileiro?

Por Miguel Thompson

A educação brasileira está prestes a enfrentar um de seus maiores desafios. Estimativas apontam que, até 2023, quase metade dos professores estarão em idade de se aposentar. Isso corresponde a cerca de 1,2 milhões de profissionais com potencial de sair da carreira docente. Isto somado à grave crise de qualidade da educação brasileira, traz a pergunta: quem assumirá as salas de aula? A despeito da complexa situação, seria importante pensarmos a aposentadoria dos professores como uma oportunidade para aproveitar as vivências desses profissionais sêniores para o estímulo, preparação e formação de novos docentes. Dessa forma, a principal crise, a da qualidade em educação, poderia ser estrategicamente equacionada, formando profissionais melhor preparados para os novos tempos, sem perder de vista o imenso capital intelectual e experiencial que os professores em processo de aposentadoria podem compartilhar. Este modelo de transição já tem sido adotado em países com ótimo desempenho educacional e tem garantido a qualidade a longo prazo.

Um dos grandes problemas no processo de formação de professores está na incapacidade de atrair os melhores alunos para a profissão. Lembremos que antes dos anos 60, as famílias de elite tinham orgulho de ter entre seus filhos, médicos, advogados, padres e professores. No entanto, nos últimos 50 anos, houve uma progressiva desvalorização da profissão docente. O processo de universalização da educação pública passou a demandar mais profissionais do que o sistema educativo poderia formar com a qualidade desejada e aconteceu uma rápida depreciação salarial dos professores.

Uma profunda preocupação com a formação docente tem sido pauta entre os especialistas. O Plano Nacional de Educação (PNE), em vigor desde 2014, apresenta propostas de melhoria da formação docente, que envolvem temas importantes como a organização curricular, o planejamento letivo, a necessidade de renovação continuada (pesquisa e programas de pós-graduação), a remuneração e os modelos de planos de carreira. A legislação vigente conta com uma clara orientação de melhoria salarial para os próximos anos, mas, fato é que ainda recebemos menos que profissionais de outros setores com a mesma qualificação. Ao analisar os números da PNAD (Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios), divulgada pelo IBGE, percebemos que os salários de professores estão crescendo, em média, acima da inflação, e num ritmo superior ao verificado entre os demais trabalhadores com diploma universitário. Isso significa que a distância entre os profissionais que dão aulas em escolas está diminuindo em relação a outras carreiras com formação universitária. Mas, infelizmente, o ritmo de melhoria dos salários ainda é insuficiente para cumprir a meta do PNE.

Formação inicial

Além de tentar atrair os melhores estudantes para a carreira docente, o Conselho Nacional de Educação, em 2015, baixou uma resolução (Resolução 2/2015 – CNE) com orientações vistas como essenciais para a formação de um professor preparado para as transformações do mundo. Assim, o CNE e as faculdades firmaram um compromisso com a qualidade docente desde os primeiros passos acadêmicos. Vamos debater alguns desses pontos e discutir como pode ser pensada a formação dos professores para o século XXI:

1Sólida formação teórica e interdisciplinar 

Uma sólida formação teórica é fundamental para se exercer uma docência de qualidade que atenda as demandas atuais. Sem a capacidade de observar o mundo pelo prisma dos modelos conceituais construídos ao longo da história da humanidade, é quase impossível ser um bom docente. Um professor alfabetizador deve conhecer as principais teorias de alfabetização e letramento para fazer suas escolhas teóricas e metodológicas de acordo com as necessidades dos estudantes e os contextos de sala de aula. O mesmo se aplica para as outras especializações e disciplinas. O profissional contemporâneo deve ter domínio sobre o conhecimento específico que irá ministrar, mas é importante ressaltar que isso não é suficiente para dar boas aulas e construir o aprendizado junto aos alunos. Não se pretende um biólogo ou um físico em sala de aula, mas professores de Biologia e Física que saibam fazer a transposição do conhecimento específico para que ele se torne significativo para todos os estudantes. Aqui, o conhecimento didático e o desenvolvimento dos alunos agrega-se à formação em disciplinas específicas, produzindo uma prática diferente daquela existente em laboratórios de pesquisa ou indústrias, construindo assim a especificidade da ação docente.

Outro ponto a destacar é a necessidade de o professor saber dialogar com distintos campos do saber para poder correlacionar conceitos específicos a outras áreas do conhecimento. Isso é necessário porque o entendimento e a resolução dos problemas reais é muito mais complexa do que a forma como são organizadas as disciplinas escolares. Eventos econômicos (crise econômica de 2008), questões ambientais (mudanças climáticas) ou crises sociais (como os fenômenos migratórios na Europa ou as manifestações sociais brasileiras de junho de 2013) só podem ser interpretadas à luz de diversos conhecimentos disciplinares. Pensando nisso, formaremos jovens mais criativos e inovadores, capazes de usar um repertório de diferentes áreas na resolução de problemas. Em geral, formar um professor com excelente conhecimento específico e amplo espectro de movimentação em diferentes áreas é vital para a formação de jovens inovadores e preparados para um mundo em constante mudança.

Unidade teoria-prática

Transpor um conteúdo específico para a sala de aula é traduzir conceitos em uma linguagem acessível e adequada para a faixa etária e sociocultural daquele contexto escolar. A capacidade de usar analogias, metáforas e exemplos do universo do estudante é fundamental para trazer significado ao que se ensina. Sem essa interação não se constrói conhecimento significativo. Como é possível uma criança lembrar mais de 100 nomes diferentes de Pokémons e não lembrar a capital de um país ou o nome do rio que corre na sua cidade? A educação se dá, na verdade, em um processo de interação entre os conhecimentos formais da escola e o cotidiano do aluno, repleto de ideias espontâneas baseadas em suas experiências. Quanto mais próximo um do outro, mais fácil transformarmos o enorme potencial da mente dos estudantes em uma realidade geradora de novos conhecimentos. É nessa constante interação entre a teoria e a prática, ou seja, entre o que deve ser ensinado de acordo com os currículos oficiais e a realidade vivida pelo estudante, que se constrói o processo educativo. O professor deve ser um investigador, imaginando o currículo a ser ensinado como uma hipótese a ser testada. Os objetivos instrucionais devem aparecer como um planejamento de um experimento, que ocorrerá em sala de aula ou em toda interação educativa. A partir das respostas dos alunos, novos planos de aula são elaborados, em um contínuo investigativo da relação teoria-prática, visando o desenvolvimento máximo daqueles alunos, naquela situação e naquele contexto. Em um mundo de transformações, a teoria deve servir como um apoio importante, mas não pode ser tratada como um catecismo imutável. É na interação com a sala de aula, no registro do professor e na reflexão sobre essa prática que se constrói um projeto educativo que leva em consideração as mudanças no espaço e no tempo, sempre com foco nas necessidades reais dos estudantes. De acordo com a resolução 2/2015 do CNE, isso se dá pensando “a docência como ação educativa e como processo pedagógico intencional e metódico, envolvendo conhecimentos específicos, interdisciplinares e pedagógicos, conceitos, princípios e objetivos da formação que se desenvolvem entre conhecimentos científicos e culturais, nos valores éticos, políticos e estéticos inerentes ao ensinar e aprender, na socialização e construção de conhecimentos, no diálogo constante entre diferentes visões de mundo.” Para que a interação entre teoria e prática funcione, não se pode mais evitar as novas tecnologias. O uso das mídias sociais é fundamental para o professor conectar os estudantes em rede, incentivar o trabalho colaborativo e de cocriação, estimular a comunicação a distância e realizar pesquisas individuais na internet, induzindo também um processo customizado de formação. É por meio das ações sugeridas, associadas ao pensamento crítico, que aproximaremos o docente das novas tecnologias, não oferecendo dispositivos eletrônicos de maneira descontextualizada e sem projetos educacionais robustos. Neste sentido, a gravação de aulas com celulares, por exemplo, permite que o professor utilize as novas tecnologias (TICs), analise individualmente e receba feedbacks que seguramente o ajudarão no aperfeiçoamento do processo educativo e no aprimoramento da prática docente. Por fim, a aproximação dos centros formadores de professores com as escolas deve ampliar a presença do futuro professor na sala de aula, transformando o estágio em uma ferramenta real de formação, reflexão e aquisição de elementos da prática docente.

Trabalho coletivo e interdisciplinar

Se antigamente planejar era um trabalho individual, hoje é irreal imaginar um projeto educativo cujos planos didáticos sejam elaborados por um professor solitário, fechado em sala de aula, em uma interação exclusiva com sua classe. Preparar o planejamento do curso coletivamente, atuar em grupo e refletir com seus pares as melhores estratégias devem ser práticas da escola contemporânea. Comunicar essa prática e incluir os estudantes nesse processo é fundamental para formar os jovens do século XXI. É por homologia de processos, isto é, reproduzindo o que viveu na escola, que se desenvolve o conhecimento e se estimula as práticas dos futuros cidadãos. Não há mais espaço para os profissionais que não sabem trabalhar em grupo. Do plano à ação, da avaliação à gestão da sala de aula, é essencial que se crie o hábito de trabalhar aos pares ou em grupos. Assistir a aula do colega para posterior feedback é uma ferramentas eficiente de melhoria da ação docente. O trabalho coletivo deve, portanto, ser tratado como um valor a ser compartilhado com os estudantes. Uma das características dos novos tempos é a colaboração em massa e os jovens produzem bem desta maneira. Os cientistas trabalham assim há séculos, publicando suas pesquisas e recebendo sugestões de seus colegas. Projetos recentes como o Genoma Humano, que sequenciou todo DNA de nossa espécie, recebeu contribuições coletivas de cientistas de todo o mundo. As empresas vêm usando esse potencial de inteligência coletiva para produzir novos produtos e serviços, como os aficionados por LEGO, que geram novos produtos para a empresa, ou mesmo grupos de consumidores de carros da BMW, que participam coletivamente da discussão e elaboração de novos projetos. Os agrupamentos de jovens, por sua vez, já produzem fenômenos coletivos, como festivais de cultura POP (Comic Con, evento de quadrinhos e séries de TV, por exemplo) ou disputas em estádio de finais de campeonatos de games (League of Legends). No processo de construção coletiva do projeto educativo, os próprios estudantes são fonte de grande valia. Pela primeira vez na história, os jovens acumulam um determinado tipo de conhecimento superior ao acumulado do mundo adulto. É o caso dos usos das novas tecnologias ou conhecimentos gerados pela cultura digital, como os canais de youtubers. O educador contemporâneo deve usar esses valores para seu aprendizado e para desafiar e se aproximar de seus alunos. Interagir com diferentes pontos de vista pode evitar erros e preconceitos inerentes a nossa formação. É no diálogo com o grupo que surgem as melhores aulas. Reconhecer que sabemos pouco sobre algo ao dialogarmos com outros especialistas, além de nos trazer novos conhecimentos, nos faz mais humilde frente aos alunos, que terão contato com toda a gama de conhecimento curricular daquela série. Se nem nós sabemos a maioria dos conteúdos, por que obrigamos os jovens saberem tudo nas avaliações? O diálogo interdisciplinar ressignifica nossos conteúdos, aproxima diferentes conceitos para a resolução de problemas e demonstra aos alunos que, para interpretar o mundo, são necessários diversos tipos de conhecimentos.

Compromisso social e valorização do educador

Já falamos aqui sobre contextualização e complexidade. Nada nos parece mais importante que estabelecer conexão entre o conhecimento escolar e a sociedade, visando a mudança da realidade. Em uma nação com tantos problemas sociais como o Brasil, é muito importante o compromisso do professor com a transformação. Seja em relação às melhorias das condições de vida, seja com uma maior atuação na comunidade e/ou no ambiente. Em um mundo globalizado e com 7 bilhões de pessoas não é mais possível imaginar apenas o desenvolvimento individual dos estudantes. É preciso planejar cursos que os preparem para a série de problemas urbanos, sociais e ambientais que eles herdarão. Assim, engajar o professor nos problemas de seu tempo é engajar os estudantes no seu próprio projeto de vida. Usar exemplos do entorno, da cultura local ou fenômenos mundiais emergentes para estimular a reflexão crítica com modelos de conhecimento escolar e de experiências dos estudantes aproxima o que se aprende na escola com a realidade, permitindo o uso dos conteúdos escolares como ferramenta de entendimento e intervenção no mundo. É também a partir dessa conexão com os contextos reais que as famílias se aproximarão da escola. É no debate sobre temas atuais e relevantes da vida familiar, que os pais entenderão que a escola não existe apenas para formar um jovem para um futuro abstrato, mas está também a serviço da contemporaneidade. É nessa entrada do conhecimento escolar no cotidiano das casas que ocorrerá a valorização do professor e a adequação do conhecimento às emergências do mundo atual.

Fomação continuada e pesquisa

Reiteramos que a única certeza que temos é a mudança. Nos novos cenários muitas funções sociais desaparecerão, como ocorreu com o datilógrafo, por exemplo. Mas, em contrapartida, novas profissões surgirão sem que nem imaginemos. Quem diria há 10 anos que ser blogueiro, youtuber ou gamer seriam profissões nos dias de hoje? Dessa forma, conhecimentos e práticas de hoje podem ser obsoletos em pouco tempo. Não se trata de ampliar nossa ansiedade em busca de cursos de uma forma que prejudique nossa qualidade de vida, mas devemos levar em consideração que precisaremos estudar ao longo de toda nossa vida. Seja para atualizar metodologias, seja para prepararmos nossos alunos de maneira adequada e significativa. Acompanhar as mudanças coletivas, sociais, acadêmicas e tecnológicas será cada vez mais um diferencial na profissão e também uma obrigação. De agora em diante, cada vez mais grupos de interesse criarão conteúdo nas mídias sociais. Questões socioambientais, éticas, estéticas e relativas à diversidade étnico-racial, de gênero, sexual, religiosa, de faixa geracional e sociocultural circularão em grupos organizados e deverão ser objeto de apreciação da escola, do professor e do plano de aula. Aproximar temas emergentes dos conceitos formais escolares será fundamental para contextualizar e trazer significado ao ambiente escolar, exigindo constante estudo, investigação e pesquisa do professor.

Autoconhecimento e formação integral

Para terminar, é imprescindível lembrar que o profissional contemporâneo deve desenvolver um compromisso com seu autoconhecimento e sua formação integral. Não somos apenas organismos cognitivos, e os novos tempos exigem uma integração maior entre mente, corpo, sociedade e ambiente. Vivemos como se vivêssemos em um mundo fragmentado, onde as pessoas, os organismos e os sistemas operassem de forma independente. Mas, na realidade, nossas relações são interdependentes e sistêmicas, portanto complexas. Saber o que não sabemos, buscar nos outros conhecimentos complementares, entender o que nos afeta coletivamente, o que são e como as habilidades socioemocionais (tão exigidas nos dias de hoje) devem ser levadas em consideração e o que devemos desenvolver e estimular nos estudantes, serão questões ainda mais relevantes para o desenvolvimento do professor como indivíduo e como profissional.

Miguel Thompson

É Doutor em Oceanografia pela USP e atua como Diretor da Fundação Santillana*. É autor de livros didáticos pela Editora Moderna e foi professor do ensino básico por 25 anos. 

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A escola e a cultura juvenil

A escola e a cultura juvenil

Miguel thompson

Miguel thompson

Reformas curriculares: adequando a educação ao novo mundo

Texto Miguel Thompson

A escola contemporânea se organizou em disciplinas escolares, herdeiras do movimento Enciclopedista do século XVIII, baseado na organização do conhecimento acadêmico. De certa forma, os currículos escolares domesticaram a cultura com programas hierarquizados e conceitos rigidamente interligados a serem transmitidos aos alunos. Assim, conhecimentos de fora do meio acadêmico, obtidos pela experiência dos jovens com seu entorno e com forte tradição popular, foram abandonados pelo processo de ensino. Esse discurso hermético, de definições, conceitos e modelos, além de não dialogar com os educandos, não tem sido capaz de explicar o mundo para os jovens: um conhecimento fechado apenas à escola e para a escola. Preocupados com a progressiva distância da educação escolar com o mundo, alguns países promovem reformas curriculares para transformar a educação em um processo mais significativo para os jovens e efetivo para a resolução de problemas, em um mundo dinâmico e complexo. Os currículos tradicionais, ainda sob forte influência da Revolução Industrial e da verticalização conceitual, vêm sendo modificados, deslocando a centralidade disciplinar para o aprendizado, a compreensão e a resolução de problemas. Com base nas ideias de Kant, utilizadas por Piaget para o desenvolvimento da sua teoria do conhecimento, não se pretende mais um conhecimento em que os estudantes sejam uma tábula rasa, meros repositórios de informações. As vivências dos jovens, suas experiências e as rápidas transformações do mundo contemporâneo passaram a ser vetores importantes para a elaboração de políticas públicas educacionais. O dinamismo do mundo atual e a velocidade com que novos conhecimentos são sistematizados, nem sempre associados ao meio acadêmico, exigem que os currículos escolares passem a ser mais porosos ao mundo e interativos com os conhecimentos prévios dos jovens.  Por outro lado, saber individualmente o que pensam os estudantes sobre cada tópico é pouco factível em salas de aula lotadas. Como abarcar o conhecimento dos jovens, interagir com os conteúdos escolares e produzir sínteses efetivas para o desenvolvimento estudantil? Abordar os processos socioculturais contribui decisivamente para construir uma escola mais contextualizada e significativa. A cultura jovem deve ser parte integrante do planejamento escolar, como forma de trazer o imaginário dos jovens e aproximá-los dos saberes escolares, enriquecendo as aulas com novos conhecimentos vindos deles.

 

Puberdade e Adolescência

 

Partindo de uma premissa construtivista, é importante entender o desenvolvimento dos jovens. A puberdade é o processo de transformação fisiológica, anatômica e psíquica que marca a passagem da infância para a juventude. É um fenômeno comum para todos os seres humanos, embora seja diferente para cada sexo biológico. Já a adolescência é um fenômeno histórico, sociocultural, localizado no tempo e no espaço. Ao contrário dos estereótipos sobre a juventude, pode-se afirmar que existem várias adolescências, determinadas por diversidade de grupos, atitudes, comportamentos, gostos, valores, filosofias de vida, níveis econômicos e regiões.  Nem sempre se considerou a adolescência como uma fase do ciclo de vida. A Organização das Nações Unidas (ONU) delimita a adolescência à faixa que vai de 10 a 20 anos. No Brasil, o Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA) descreve essa fase entre os 12 e os 18 anos. Mudanças culturais e socioeconômicas vêm estendendo essa faixa até cerca de 30 anos, seja pela diminuição do número de filhos na família, ampliando o foco de atenção dos pais aos filhos, seja por questões econômicas, que obrigam o jovem adulto a viver com a família original por mais tempo. De qualquer forma, o status de adolescência como uma fase formal do ciclo de vida foi definido no início do século XX, a partir dos estudos do psicólogo Stanley Hall.

 

A adolescência ao longo da história

 

A adolescência sempre foi uma preocupação da sociedade, apenas não era considerada uma fase diferenciada, como a infância e a vida adulta. Na Grécia Antiga, a imagem mitológica de Eros era a representação ora de uma criança na forma de anjo, ora de um adolescente, descrito como mimado e irascível, a distribuir sentimentos passionais para aqueles que flechava. Em muitos relatos, é possível identificar as relações conflituosas entre Eros e outros deuses. Nada diferente do estereótipo que temos dos adolescentes de hoje. Havia uma preocupação também do contato entre jovens e adultos. A famosa condenação de Sócrates foi decorrente da acusação de o filósofo degenerar os mais jovens com suas ideias e comportamento. Muitas são as culturas e religiões que possuem cerimônias ou rituais que demarcam a passagem da infância para a juventude e do jovem para a vida adulta. Na Idade Média, o sistema feudal exigia que as crianças trabalhassem assim que desenvolvessem autonomia, sendo tratadas como adultos em miniatura, sem que houvesse uma ideia de juventude.  Shakespeare foi um dos primeiros escritores a descrever uma forte reação dos jovens contra as tradições dos adultos em Romeu e Julieta. Romeu tinha 17 anos, e Julieta, 13.  O movimento Romântico (séc. XVIII-XIX) apresenta características típicas dos jovens adolescentes, como o subjetivismo, a idealização, o sentimentalismo, o egocentrismo (culto ao eu interior), o escape psicológico (nostalgia da infância e a idealização de um passado medieval), a necessidade de liberdade de criação, o pessimismo (protagonistas com profunda tristeza, angústia, solidão, inquietação, desespero). O romance Os sofrimentos do jovem Werther (1774), de Goethe, foi proibido e acusado de incentivar o suicídio entre os jovens – preocupação parecida com a recente série televisiva 13 reasons why (13 razões porquê) e com o suposto “Jogo da Baleia Azul”. A ideia de indivíduo passa a ser cada vez mais fomentada pela associação do Romantismo com a filosofia liberal. Nesse período, surge o Romance de formação, em que se descrevem as agruras do processo de desenvolvimento da juventude, com Os anos de aprendizado de Wilhelm Meister, de Goethe. Obras como As Aventuras de Tom Sawyer, de Mark Twain, O apanhador no campo de centeio, de J. D. Salinger, e Harry Potter, de J. K. Rowling, são herdeiros dessa tradição. A cultura jovem deve ser parte do planejamento, como forma de trazer o imaginário dos jovens e aproximá-los dos saberes escolares. O século XIX é repleto de literaturas focadas na adolescência. Os irmãos Grimm pesquisaram contos com adolescentes como protagonistas, em rituais de passagem para a vida adulta. A partir da tradição oral, compilaram as histórias de Branca de Neve, Rapunzel e Cinderela. Uma versão moderna é a empoderada Elsa, de Frozen, muito mais adequada para as adolescentes feministas atuais.  No final do século XIX, uma icônica referência foi a do poeta Arthur Rimbaud, que produziu toda sua poesia enquanto era adolescente, abandonando a produção literária aos 20 anos. Sua foto adolescente é uma das mais conhecidas representações de juventude do Ocidente. Nessa época, inicia-se o ideal de juventude como desejo da sociedade. Oscar Wilde escreveu O Retrato de Dorian Gray, em 1890, representando um jovem que jamais envelhecia. O século XX foi uma grande ode à adolescência. Com o processo de urbanização e a revolução industrial acelerada no século XIX foi preciso intensificar a formação dos jovens para o mundo do trabalho, massificando a educação e os agrupando em faixas etárias, como nas linhas de montagem. Por outro lado, milhares de jovens morreram na Primeira Guerra Mundial, ampliando nas famílias o desejo de proteger e de dar mais atenção a seus filhos. A urbanização, as aglomerações urbanas, a locomoção mais rápida com o advento do automóvel e outras mudanças culturais aproximaram os jovens, que passaram a construir um rápido processo de imaginário coletivo. A partir da Segunda Guerra Mundial, com o advento da bomba atômica, uma revolta contra o mundo adulto passa a tomar conta de parte da população jovem. James Dean pode ser visto como uma espécie de Rimbaud/Dorian Gray, sendo a encarnação dessa “juventude transviada”. O rock’n’roll passa a ser um mantra entre os adolescentes urbanos, vindo dos Estados Unidos, contaminando todo mundo ocidental, com um forte apelo ao consumo, principalmente pela rápida popularização da televisão. Foi possível o desenvolvimento de uma cultura juvenil pelo amplo processo de escolarização dos jovens e pelo retardamento da entrada destes na vida adulta, passando a ter mais tempo para interagir com colegas de mesma idade, sem uma pauta de produtividade. Movimentos culturais como os beatniks e contracultura hippie dos anos 1960 foram o coroamento da centralidade do jovem no mundo contemporâneo. Dos discursos identitários sessentistas vieram o feminismo, o movimento LGBT, a luta antirracista, o movimento ambiental e o ativismo político. Hoje, não é difícil encontrar estudantes que se identificam com alguma dessas causas.   A ideia da adolescência como fase de vida é uma construção que vem se consolidando socialmente em especial nos últimos 200 anos, não como um comportamento único, mas plural, com diferentes grupos identitários que podem se agrupar em tribos urbanas modernas e que se bem compreendidas podem ajudar no planejamento do processo de ensino-aprendizagem, contribuindo para uma passagem menos conflituosa.

 

A cultura jovem no Brasil

 

Conhecer a cultura jovem, identificar entre os alunos esses grupos culturais e intermediar o conhecimento formal com a cultura de massa é uma boa estratégia para dar maior significado ao conhecimento em qualquer disciplina. Para muitos conteúdos, seja pela característica ou pelo contexto dos períodos em que os conhecimentos foram formalizados, conectar a cultura juvenil ao conteúdo escolar pode despertar a curiosidade e o engajamento no processo individual e coletivo de aprendizado. Em 2018, a Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), em uma ação extremamente arrojada, inseriu em sua lista de preparação para o vestibular o álbum Sobrevivendo no Inferno, dos Racionais MC, grupo de rap com ampla penetração entre os jovens. Mais do que estudar para o vestibular, a Unicamp aponta que a cultura jovem é um conhecimento a ser considerado pela escola. São muitos os diferentes campos da cultura pop que podemos conhecer e utilizar nos planos de aula. Veja alguns exemplos:

O rock

Há uma farta produção bibliográfica e cinematográfica sobre o rock no Brasil, suas origens e penetração como força cultural. Uma boa dica é assistir ao filme biográfico de Erasmo Carlos, Minha Fama de Mau. O filme aborda principalmente a formação e a consolidação da cultura juvenil no Brasil entre 1950 e 1960. O rápido processo de urbanização e estratificação social do período, a expansão da classe operária e da classe média. Essa base de mudanças abriu espaço para o desenvolvimento de uma cultura de consumo.

O sertanejo

A migração da música caipira, profundamente enraizada no mundo rural, para o meio urbano, fundindo-se com o iê-iê-iê da Jovem Guarda, deu origem à música sertaneja. Há muitas variações do ritmo, como o sertanejo universitário, voltado para um público jovem e caracterizado pelo afastamento do cenário e dos valores da tradição rural. As temáticas exploram a importância do dinheiro, o universo das baladas, as conquistas amorosas, os namoros rápidos e a “sofrência”.

O funk no brasil 

O funk brasileiro vive há quase duas décadas entre extremos de aceitação e repúdio. As músicas são executadas milhões de vezes no Youtube e no Spotify. O ritmo surgiu nos anos 1960 como expressão da cultura negra norte-americana e chegou ao Brasil nos anos 1970, principalmente no Rio de Janeiro e em menor expressão em São Paulo. Executado em bailes comandados por DJs, rapidamente foi assumindo uma cultura particular, com seus MCs. Um dos principais influenciadores do funk no Brasil foi o antropólogo Hermano Vianna, como objeto de pesquisa acadêmica. Aqui, a Academia foi em busca da cultura popular.

O geek e o nerd

A Comic Con e a Campus Party são dois dos eventos mais importantes da cultura geek e nerd. Só no Brasil, cerca de 300 mil jovens visitam a Comic Con, onde é exposto o que se tem de mais relevante na cultura de quadrinhos, cinema, televisão e games. Acompanhar as notícias ou participar desses eventos nos dá um bom upgrade sobre essa cultura. Há uma intensa ressignificação desses jovens consumidores. A partir de seriados de televisão como The Big Bang Teory e Silicon Valley, bem como a exposição constante de ícones da tecnologia como Steve Jobs e Bill Gates, muitos jovens passaram a apreciar essa cultura; o antigo CDF tornou-se cool, não mais o típico jovem a sofrer bullying. Passa a ser um estilo de vida construído a partir do consumo e das novas concepções de juventude e de trabalhador ideal para o mundo da quarta revolução industrial. Uma junção de cultura do entretenimento e da tecnologia passa a definir identidades juvenis.  O jovem de hoje valoriza a diversidade de ideias e culturas e busca mais participação em atividades sociais e cívicas de seu entorno. A escola precisa representar esse espaço de múltiplos diálogos. 

O ativista

Os anos 60 foram ricos em manifestações políticas da juventude. Muitas dessas causas se expressam hoje nos jovens do Ensino Básico. Entender esses movimentos ajuda a preparar nossos planejamentos da maneira mais significativa para os estudantes. Movimentos como o de junho de 2013 tiveram origem no protesto de jovens contra o aumento de passagem de ônibus urbanos. Em poucas semanas o país foi tomado pelo movimento, que ampliou suas pautas e tornou-se mais complexo. Em uma linha similar de movimentação de jovens, menos politizada, mas também de grande importância, podemos colocar os rolezinhos que ocorreram no final de 2013 e em parte de 2014, quando jovens de classe média baixa se espalharam por todo Brasil, passeando em grupos em vários shoppings a que comumente não tinham acesso e nem eram bem-vindos. As ocupações das escolas públicas foram um misto de rolezinhos com as jornadas de junho de 2013, pelo ato de ocupação e pela ação política. O processo de organização dos protestos gerou uma dinâmica de organização coletiva que forjou novas relações sociais, tanto entre os estudantes, como entre eles e os professores e as direções das escolas. A ideia de grêmios escolares geridos horizontalmente, sem relações hierárquicas, foi um dos pontos-chave do movimento. Em pouco tempo escolas de São Paulo, Goiás, Rio de Janeiro, Maranhão, Ceará, Rio Grande do Sul, Minas Gerais, Pará, Paraná e Espírito Santo foram ocupadas. Nesses movimentos, as meninas tiveram um papel preponderante. Paralelamente às ocupações estudantis, vimos as jovens brasileiras se apropriarem de um debate político e feminista com camisetas com os dizeres “Lute como uma garota” pelas escolas. É importante destacar os recentes movimentos feministas como o #MeToo dos Estados Unidos que fala contra o abuso masculino e se posiciona a favor dos direitos das mulheres.

 

Em síntese

 

A nova geração das múltiplas culturas tem um comportamento global, com grande afinidade à diversidade, em que muitos participam de atividades cívicas. São colaboradores naturais, prezando a liberdade de escolha e tendem à personalização das coisas, uma geração que sai de um comportamento passivo frente à televisão para uma interação constante com as mídias digitais. Ao contrário das gerações passadas, querem se divertir, seja na escola, seja em movimentos cívicos ou no trabalho, o que não retira deles a responsabilidade pela entrega com qualidade. Vivem em um mundo veloz e aceitam a inovação como elemento natural da vida. O modelo fabril do século XX vai sendo substituído pelo ateliê do artesão, o estúdio do artista, a oficina de consertos ou, por que não, em um grande salão de festas. 

Para saber mais

  • Campos, A. J. M.; Medeiros, J.; Ribeiro, M. M. Escolas de luta. São Paulo: Veneta, 2016. 
  • Carr, N. A geração superficial: o que a Internet está fazendo com nossos cérebros. Rio de Janeiro: Agir, 2011.
  • Pinheiro-Machado, R. Amanhã vai ser maior: o que aconteceu com o Brasil e as possíveis rotas de fuga para a crise atual. São Paulo: Planeta do Brasil, 2019.
  • Prensky, M. Enseñar a nativos digitales. UE: Ediciones SM, 2011.
  • Rocha, C. Popular e perseguido, funk se transformou no som que faz o Brasil dançar. Disponível em: nexojornal.com.br. Acesso em: 6 jan. 2020. 
  • Santos, P. M. dos. O Nerd virou cool: consumo, estilo de vida e identidade de uma cultura jovem em ascensão. Dissertação de Mestrado: Universidade Federal Fluminense, 2014.
  • Schoen-Ferreira, T. H.; Aznar-Farias, M.; Silvares, E. F. de M. Adolescência através dos séculos. Psicologia: Teoria e Pesquisa. abr.-jun. 2010, v. 26, n.2, pp. 227-234.
  • Tapscott, D. A hora da geração digital: como os jovens que cresceram usando a Internet estão mudando tudo, das empresas aos governos. Rio de Janeiro: Agir Negócios, 2010.
  • Zimmermann, M. Erasmo Carlos e sua fama de mau: o rock e a cultura juvenil no Brasil (1950-60). Disponível em: mod.lk/ed18pano. Acesso em: 10 fev. 2020.

Miguel thompson é Doutor e Mestre pelo Instituto Oceanográfico da USP. Autor de livros didáticos e de difusão científica, foi professor do Ensino Básico por 25 anos. Atua como consultor do Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (PNUD), é presidente do conselho editorial da Revista Educação e diretor acadêmico da Fundação Santillana. — De acordo com a Lei 9.610/98 é proibida a reprodução total ou parcial desta website, em qualquer meio de comunicação, sem prévia autorização.

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Portal Porvir

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O aluno aprende sozinho a usar, o professor garante segurança

Pesquisa TIC Educação 2018 destaca a importância do educador como mediador para uso de tecnologias, mas falta formação estruturada para isso.

Texto Portal Porvir

Aprender sozinho é o principal caminho encontrado pelos alunos na hora de usar tecnologia. Apenas para 44% dos estudantes de escolas urbanas, os professores são considerados fonte de informação sobre o tema. Antes de recorrer ao apoio dos educadores, eles trocam informações com amigos, parentes ou até mesmo buscam vídeos e tutoriais disponíveis na internet. Os dados são da TIC Educação 2018, divulgada em julho pelo CGI.br (Comitê Gestor da Internet no Brasil), por meio do Cetic.br (Centro Regional de Estudos para o Desenvolvimento da Sociedade da Informação) do NIC.br (Núcleo de Informação e Coordenação do Ponto BR). Para investigar o acesso, o uso e a apropriação das TICs (Tecnologias de Informação e Comunicação) nas escolas públicas e particulares brasileiras de ensino fundamental e médio, a pesquisa entrevistou presencialmente, em escolas urbanas, 11.142 alunos de 5º e 9º ano do ensino fundamental e 2º ano do ensino médio, 1.807 professores de Língua Portuguesa, de Matemática e que lecionam múltiplas disciplinas (anos iniciais do ensino fundamental), 906 coordenadores pedagógicos e 979 diretores. Nas escolas rurais, foram ouvidos 1.433 diretores ou responsáveis pela escola. “Mesmo não sendo a principal referência para os alunos (na busca por conhecimento em tecnologia), os professores são mediadores para o uso das tecnologias”, disse Daniela Costa, coordenadora da pesquisa TIC Educação. Segundo ela, os educadores já são reconhecidos pela maior parte dos alunos de escolas urbanas públicas e particulares como validadores do conteúdo encontrado na internet, seja na hora de comparar informações em sites diferentes, para indicar sites ou produzir trabalhos. Diante dos riscos à privacidade e de perigos on-line, assumir papel de mediador não significa saber menos que o estudante. Para a consultora Maria da Graça Moreira da Silva, docente da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP) e consultora do Instituto Natura, os educadores devem trazer uma intenção pedagógica clara para fazer o uso desses recursos digitais. “Os alunos normalmente sabem usar as tecnologias com os seus colegas para jogar, conversar ou acessar WhatsApp e Instagram, mas isso não significa que eles sabem aprender por meio de tecnologias”, disse a consultora.

 

Formação de professores em tecnologia

 

Quando o assunto é tecnologia, a tendência de aprender sozinho também ganha força entre os educadores. De acordo com a pesquisa, 90% dos professores afirmaram que aprenderam sozinhos a usar as tecnologias. Nos últimos três meses anteriores à realização da pesquisa, 76% dos professores participaram de cursos sobre tecnologia, especialmente sobre como melhorar sua prática e ajudar alunos a fazer uso seguro delas. Daniela Costa, do NIC.Br, ressaltou, no entanto, que ainda faltam maneiras mais estruturadas para formar professores, seja nas escolas públicas ou particulares. Na formação inicial, o contato de tecnologia acontece de forma desigual dependendo da área de conhecimento do professor. Enquanto 58% dos professores de Matemática disseram ter cursado disciplina específica para tecnologia, apenas 42% de Língua Portuguesa dizem ter passado pela mesma experiência. “Existe uma tendência de a tecnologia estar mais presente nas áreas de ciências exatas, mas eu diria que as políticas públicas enfrentam um grande desafio, porque a tecnologia é aliada em todos os campos do conhecimento. Não obstante as escolas já estejam conectadas e alunos em posse de tecnologias, os professores ainda trazem essa falha na formação”, disse Alexandre Barbosa. A TIC Educação revela que, em 2018, 64% dos professores até 30 anos tiveram a oportunidade de participar, durante a graduação, de cursos, debates e palestras sobre o uso de tecnologias e aprendizagem promovidos pela faculdade, assim como 59% realizaram projetos e atividades para o seu curso sobre o tema. Por mais que tenham buscado aprimorar seus conhecimentos na internet ou com colegas, apenas 30% dos professores realizaram algum curso de formação continuada. No momento da realização da entrevista 30% das escolas particulares participaram de alguma iniciativa do tipo, enquanto que, entre as públicas, esse número era menor: 21%. “O papel do gestor escolar é muito importante. Não basta ter infraestrutura e vontade do professor se os responsáveis pelos programas de formação não estimularem e criarem as condições necessárias para que esse processo de formação continuada se estabeleça”, afirmou Leila Iannone, coordenadora da pesquisa.

 

Cidadania digital e uso seguro dos dados

Além de apoiar os alunos na apropriação das ferramentas, a formação também é fundamental no que diz respeito ao uso seguro e consciente da tecnologia. Entre os educadores, 38% afirmam terem apoiado algum aluno a enfrentar situações como bullying, discriminação, assédio ou disseminação de imagens sem consentimento na internet. A proteção de dados também é um assunto que ganha destaque na comunidade escolar. Entre os coordenadores pedagógicos entrevistados, 59% deles afirmaram que buscaram cursos, palestras e fontes de informação sobre a disseminação de dados dos alunos e da escola na internet. Quando o assunto é segurança, os alunos reconhecem que recorreram aos professores para buscar auxílio sobre uso seguro da internet (48%) e receberam orientações para comparar informações em diferentes sites (51%).

Conectividade

Assim como nos levantamentos anteriores, quase que a totalidade das escolas urbanas (98%) conta com um computador conectado à internet. Em 2018, apenas 12% das escolas públicas tinham uma conexão de banda larga de 11 Mbps ou mais rápida, enquanto que esse cenário já era percebido em 42% das escolas privadas. O acesso ao wi-fi também continua baixo entre os estudantes. Apenas 16% dos alunos de escolas urbanas afirmaram ter permissão para uso da rede sem fio.

 

Para saber mais

TIC Educação 2018: mod.lk/ticedu18 Especial

Tecnologia na Educação (Porvir): mod.lk/porvirtc

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