Mudança de Mindset para uma Educação Inovadora

Mudança de Mindset para uma Educação Inovadora

Débora Garofalo

Débora Garofalo

Débora Garofalo é formada em Letras e Pedagogia, com especialização em Língua Portuguesa pela Unicamp, Mestra em Educação pela PUC-SP e FabLearn Fellow, Columbia, EUA. Professora há 16 anos da rede publica de SP, sendo idealizadora do trabalho de Robótica com Sucata que se tornou uma política pública. Atualmente é Coordenadora do Centro de Inovação da Secretaria Estadual de Educação do Estado de São Paulo e colunista das Redes Inovadora na Editora Moderna.

Integrante da comissão de Direitos Humanos da Cidade de São Paulo e Palestrante em grandes eventos Nacionais e Internacionais entre eles, Latinoware, Campus Party, Bett Educar, Havard, EUA, Oxford em Londres, Buenos Aires na Argentina, Ecole Polytechnique, França. Pelo trabalho realizado na Educação Pública, recebeu diversos prêmios importantes, entre eles: Professores do Brasil 2018, Desafio de Aprendizagem Criativa do MIT 2019, Medalha de Pacificadores da ONU 2019 e considerada uma 10 melhores Professoras do Mundo pelo Global Teacher Prize 2019, Nobel da Educação.

Mudar a maneira e a forma que ensinamos não é uma tarefa fácil. Principalmente pelo processo de formação docente, falta de infraestrutura das unidades escolares, ausência de formação docente em serviço e constantes mudanças nas políticas públicas.  

 Para realizar uma mudança na maneira de conceber a educaçãoé necessário romper com velhos paradigmas e anos de uma abordagem pedagógica pautada na transmissão de conhecimento, dando lugar a mudança de mindset e novas formas de conceber a educação inovadora.  

Neste sentido, a palavra mindset pode ser compreendida como um conjunto de atividades mentais e ganha força ao desenvolver novas competências, habilidades e formas para o professor assumir o protagonismo e emergir novas abordagens pedagógicas como um mediador do conhecimento e parceiro do estudante.  

 

Para saber mais 

 Existealgumas formas de mindset que podem nos fazer ser otimista e ou pessimista, nos âmbitos profissionais e pessoais, descritos através de pesquisas realizadas pela Dra. Carol Dweckph.D em seu livro, Mindset – a nova psicologia do sucesso. 

Na obra, a autora descreve alguns tipos de mindset como os fixos que são pessoas que não acreditam e determinadas capacidades, em que desafios são vistos como oportunidades de julgamento. E de crescimento que são pessoas otimistas, que acreditam em seus talentos e possuem resiliência frente a desafios. 

 

A chave do sucesso de uma educação inovadora, começa com a atitude em nós professores. Neste sentido, para iniciar o processo de mudança de mindset na educação é necessário darmos este passo, acreditando em nosso potencial, praticando a empatia, definindo metas tangíveis e pensando fora da caixa.  A seguir, compartilho algumas dicas e reflexões que poderão ajudar nesta mudança.

 

Tematização docente 

A tematização docente está diretamente relacionada com o perfil do professor enquanto pesquisador da sua prática, autoavaliando em sala de aula. Para isso, ele pode combinar com os estudantes e seus familiares que irá gravar algumas aulas para sua autorreflexão. É importante ter o apoio dos familiares e estudantes e realizar um termo de consentimento para esta ação. 

Ao realizar essa gravação, o professor poderá rever suas ações, tomadas decisões e principalmente compreender se está no caminho certo com a turma. Enquanto docente, fiz muito este processo e alguns casos percebi que estava sendo diretiva em minhas ações de forma involuntária e ou ainda deixado de intervir em algumas situações pedagógicas com receio dos estudantes não darem suas contribuições. Enquanto profissionais, somos todos aprendentes e devemos rever nossas rotas! 

Outra forma são as rubricas de avaliação, que além de avaliar o processo, com a participação dos estudantes podem e devem avaliar o professor e seu trabalho, criando uma nova cultura de aprendizado e de escuta ativa. 

Novas abordagens de ensino 

Romper com velhos paradigmas também significa permitir novas formas de aprendizagens. As metodologias ativas são um bom exemplo disso, porque podem ser trabalhadas em suas diferentes modalidades na busca da personalização e no respeito aos diferentes ritmos de aprendizagem, ao despertar os estudantes a uma nova cultura em que o professor será parceiro na construção da autoria e do protagonismo juvenil. 

Ambiente de aprendizagem 

 O ambiente de aprendizagem tem uma grande importância ao ensino. Para trabalhar com novas abordagens é essencial cuidar do espaço que deve trazer valores e aspectos de segurança, mas também elementos de uma educação integral, favorecendo a colaboração, empatia e trazendo recursos que possam personalizar este ambiente.  

Inclusão de uma educação inovadora 

Possibilitar novas formas de ensino requer possibilitar a inserção da inovação na sala de aula e no processo de ensino em frentes que possibilitam vivências significativas como a cultura maker, cultura digital, gamificação, programação (que permite o trabalho com narrativas digitaisstorytelling, jogos), robótica, entre outros, em que o estudante assume o centro do processo de aprendizagem e o professor exerce o papel central de apoiar novos caminhos. 

Incentive o mindset de crescimento dos estudantes 

 É necessário ressaltar, enaltecer e incentivar as habilidades dos estudantes. São pequenos gestos que podem transformar vidas e deixá-los mais seguros e acreditarem em si e em todo o seu potencial. 

Um grande abraço e até a próxima,

Débora

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Plataformas adaptativas – O que são e como podem (ou não) contribuir para a recuperação da aprendizagem

Plataformas adaptativas – O que são e como podem (ou não) contribuir para a recuperação da aprendizagem

Débora Garofalo

Débora Garofalo

É formada em Letras e Pedagogia, com especialização em Língua Portuguesa pela Unicamp, Mestra em Educação pela PUC-SP e FabLearn Fellow, Columbia, EUA. Professora há 16 anos da rede publica de SP, sendo idealizadora do trabalho de Robótica com Sucata que se tornou uma política pública. Atualmente é Coordenadora do Centro de Inovação da Secretaria Estadual de Educação do Estado de São Paulo e colunista das Redes Inovadora na Editora Moderna.

Com o avanço da pandemia é preciso pensarmos em maneiras e formas de manter o ensino remoto ou híbrido E como eles podem apoiar a recuperação da aprendizagem 

 Após um ano ministrando aulas no formato remoto, temos pesquisas e literaturas sobre o assunto, como o recente livro lançado pelo Professor Fernando Reimers, da Universidade de Havard Leading Education Through Covid-19 (que ainda não possui tradução para o português), em que o autor aponta que a inovação e a colaboração são chaves para o sucesso educacional 

 A pesquisa revela que somente uma aula ao vivo não é eficaz para contribuir com a aprendizagem. O que já sabemosuma vez que nada substitui as aulas e o contato presencial de estudantes e professores 

 A tecnologia deve ser utilizada sempre como propulsora ao processo, com objetivos e propósitos clarosPara não corrermos o risco de voltarmos a antigos modelos de aprendizagem tendo o professor como transmissor de conhecimento e não como o mediador do processo. 

 Estes são pontos essenciais na hora de escolher uma tecnologia ou uma plataforma adaptativa que devem ser acompanhadas de novas abordagens de ensino que visam contribuir com o processo e com o desenvolvimento de habilidades elencadas no planejamento do professor.  

Para além da Tecnologia 

 O uso da tecnologia possui relevância para a educação se vier acompanhada de novas abordagens ativas de ensino, principalmente porque um dos aprendizados deste período é a importância de cultivar as habilidades no desenvolvimento da autonomia competências digitais para professores e estudantes. 

 Neste quesito, as metodologias ativas e o ensino híbrido podem (e devem) contribuir para a eficácia deste processo ao compreender que ela parte de problemas reais, aprendizagem por projetos e que podem ser trabalhadas em diferentes modalidades como a sala de aula invertida que atua em três momentos – antes, durante e depois na busca da personalização de ensino, protagonismo juvenil, além de potencializar os momentos de aula síncrona.  

 A pandemia vem aumentando as desigualdades sociais e o grande desafio é encontrar formas de recuperar o aprendizado com eficácia na aprendizagem, garantindo uma participação efetiva dos estudantes diante dos diferentes ciclos de escolarização, que neste momento vem sofrendo com consequências diretas na aprendizagem e indireta devido a crise econômica e social das famílias. É neste cenário que as plataformas adaptativas podem atuar e contribuir com o processo de recuperação da aprendizagem, desde que considere uma série de fatores. 

 Para não cair em armadilhas 

Como vimos as plataformas adaptativas podem contribuir para a aprendizagem, mas não basta apenas dar acesso aos estudantes, é preciso analisá-la, avaliar o seu conteúdo e verificar se existe sinergia com o currículo e com a proposta pedagógica do professor em curso, cuidando para que seja relevante aos estudantes e não apenas seja utilizada como testes de múltiplas escolhas.  

 Para eficácia é necessário a compreensão de que as plataformas adaptativas apoiam a aprendizagem em curso e não o processo inicial de um conteúdo do zero, por isso, é necessário boa gestão, formação profissional e garantir que todos os estudantes consigam ter acesso aos softwares 

 Plataformas adaptativas  

 As plataformas adaptativas são softwares inteligentes através do uso do Big Data, que podem ou não utilizar da gamificação para propor atividades diferenciadas para os estudantesrespeitando diferentes etapas de ensino e fases de conhecimento na busca por autonomia e personalização do processo cognitivo 

 Assim, o professor pode avaliar e fazer uso de plataformas diferenciadas que auxiliem os estudantes em suas dificuldades, pois, a maioria utiliza algoritmos que analisam o desempenho em tempo real e sugerem conteúdos que variam de vídeos, games, exercícios, leituras, entre outros, de forma específica e individualizada aos alunosSeparamos algumas sugestões para que possam conhecer e usar em sala de aula.  

 

Geekie Games é uma plataforma brasileira de ensino adaptativo, que oferece ensino personalizado por meio de jogos para ajudar estudantes a se prepararem para o Enem (Exame Nacional do Ensino Médio). Depois que cada estudante realiza os simulados on-line, os algoritmos identificam suas necessidades e dificuldades e a melhor maneira de ensiná-lo, além de apresentar essas informações para que o professor também possa adaptar suas aulas 

 A plataforma opera na versão gratuita e na versão paga, entretanto na versão gratuita é possível ter acesso a todo o conteúdo de videoaulas e aos simulados. Para isso, basta pesquisar uma palavra-chave no campo de busca ou filtrar pela disciplina.  

 

A DreamBox Learning é uma plataforma adaptativa de matemática para o ensino fundamental (anos iniciais), que utiliza a lógica da gamificação. O site está em inglês é possível a tradução e ou ainda ser usado para o ensino bilíngue.

 

A ScootPad é uma plataforma adaptativa para estudantes do ensino fundamental (anos iniciais e finais) desenvolverem habilidades de leitura e matemática. Com planos gratuitos, o site oferece informações em tempo real para os professores e aprendizado por meio de jogos, tem parcerias com o Google in Education, o Edmodo e a Schoology Platform. A plataforma está aberta para apoiar o ensino neste momento de pandemia 

 

Plataforma Adaptativa de Matemática (PAM) é voltada para estudantes do ensino fundamental e médio e oferece um sistema de avaliação integral com relatórios de desenvolvimento para alunos e professores que conta com 100 mil exercícios, além de glossários, arquivos de textos e quizzes, promovendo a personalização tanto individual como para um grupo de estudantes, de acordo com as semelhanças de suas necessidades, conhecimentos e desenvolvimentos de habilidades.  

 

Um abraço e até a próxima!

Débora

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Storytelling: A arte de encantar, influenciar e conquistar

Storytelling: A arte de encantar, influenciar e conquistar

Histórias e metodologias para transformar a sua realidade e engajar toda a comunidade escolar.

Apesar de ser um termo que ganha cada vez mais relevância na era digital, storytelling é uma prática que remonta ao início da história da humanidade e está intimamente ligada à comunicação que permitiu a nossa evolução para que nos tornássemos a espécie dominante do planeta. A sua importância é tão fundamental para a nossa existência que nossos cérebros são configurados biologicamente para prestar atenção em histórias. Por isso, desde sempre, saber contar boas histórias é uma das estratégias mais eficientes para engajar cérebros, e, consequentemente, quem eles comandam: pessoas. 

Histórias existem muito antes de poderem ser registradas: uma das primeiras evidências de storytelling são as imagens das cavernas de Lascaux na França, que datam de aproximadamente 17 mil anos atrás, retratando uma variedade de desenhos de animais e algumas poucas criaturas humanoides. Essas figuras são esforços combinados de várias gerações representando os seus rituais: contando histórias, que também sugerem que o ser humano não era o foco central, e que o drama daquele período do Paleolítico acontecia, realmente, entre a megafauna – carnívoros e grandes herbívoros.

A linguagem verbal, por sua vez, pode ser rastreada em um período que vai bem mais longe, até pelo menos 50 mil anos atrás, sendo que a maioria dos linguistas acredita que a sua origem é muito mais antiga do que isso, possivelmente há mais de 500 mil anos. No entanto, para conseguir construir narrativas – portanto, histórias –, foi necessário que a linguagem verbal evoluísse de uma protolíngua para estruturas mais complexas, como a da maioria das línguas que chamamos de antigas, e que não chegam a ter mais de 6 mil anos. A escrita, por sua vez, entra em cena mais recentemente, há aproximadamente 5 mil anos, ampliando o poder de propagação das histórias.

Nesse sentido, ao longo do tempo, as formas com que as histórias eram contadas – tanto linguagens, quanto seus suportes – foram mudando drasticamente, adquirindo características adicionais conforme os avanços tecnológicos passaram a oferecer novas possibilidades para criá-las, registrá-las, reproduzi-las e propagá-las. A imagem da figura 1 mostra algumas das principais formas de contar histórias desde a Antiguidade até a era digital, em que surgem constantemente novos suportes de mídia, que continuamente acrescentam mais recursos para o espaço narrativo. Virtualmente, podemos dizer que não existem limites para expandirmos o universo ficcional – tudo pode ser utilizado e mixado para criar, registrar, contar e propagar histórias. 

O processo de evolução da narrativa é decorrente da simbiose natural entre linguagens e suportes, que vão mutuamente se modificando, de forma contínua, elevando o grau de complexidade da comunicação, e, consequentemente, do storytelling. Esse caminho culmina no contexto atual, altamente transmidiático, que se desenvolveu (e continua a se desenvolver) em sintonia com a evolução da própria humanidade, que sofre, também, um aumento gradativo de complexidade.

Exemplos disso são as histórias da Marvel ou DC Comics, nas quais não apenas os personagens, mas todo o universo ficcional das séries e filmes se relacionam entre si, expandindo-se, também, nesse processo, para outros suportes: TV, cinema, jogos, etc. Nesses casos, a história passa a não caber mais em apenas uma mídia, ou uma narrativa, ou um suporte único, transcendendo-se tanto em forma quanto em conteúdo, apropriando-se, para tanto, de todas as possibilidades tecnológicas e de linguagem possíveis. Além da infinidade das potenciais inter-relações transmidiáticas que a fluidez do ambiente digital oferece, os personagens também cresceram consideravelmente na complexidade da sua construção, quando comparados com os das narrativas populares usuais do século passado, que tendiam a uma dualidade ingênua entre bem e mal, herói perfeito ou vilão eterno. Hoje, o caráter dos personagens oscila com muito mais frequência entre os extremos, de uma forma muito mais sutil e dinâmica dentro da narrativa, representando de modo bem mais verossímil a essência complexa do ser humano. 

Economia da atenção, era da distração

Essa multiplicidade crescente de plataformas que o ambiente digital proporciona não apenas contribui para o aumento da complexidade das histórias, mas traz consigo duas consequências adicionais diretas na comunicação:

① explosão de conteúdos, criando sobrecarga informacional;

② fragmentação da informação, favorecendo a interrupção e a distração.

Nesse contexto, em que sofremos cada vez mais com a sobrecarga, com a fragmentação e com a dispersão informacionais, experimentamos um aumento considerável não apenas na concorrência pela nossa atenção, mas também, e principalmente, na dificuldade de conseguir extrair sentido e utilidade desse tsunami de conteúdos que nos assola continuamente. Isso tudo nos leva à Era da Distração, em que é muito mais fácil e tentador se distrair a todo momento na superficialidade desse volume gigante de informação, que nos dá a “ilusão de saber” (um dos fatores de propagação de fake news), do que gastar tempo e energia para processar significado, aprofundar conhecimento para, realmente, adquirir o “saber”. Essa é uma das grandes ironias dos nossos tempos: a riqueza informacional é cada vez mais abundante e disponível a todos, mas apenas aqueles que empenham o esforço necessário para conseguir selecionar o que realmente tem valor para suas vidas conseguem manter o foco para alcançar seus objetivos. Os demais tendem a ser levados pelas correntes dos fluxos informacionais de duas formas principais: à deriva, ou dirigidos por aqueles que sabem navegá-los.

Nesse sentido, aqueles que dominam os fluxos informacionais exercem um grande poder social – tanto para educação e evolução, quanto para alienação e manipulação. Isso não é novidade, e acontece desde sempre. A clássica estratégia panem et circenses, que surgiu na Roma Antiga, continua plenamente em uso hoje em dia para distrair e manipular massas. No entanto, se na Antiguidade romana, o poder predominante sobre os fluxos de informação era dos governantes, com o passar dos séculos esse poder foi se tornando acessível também para outros agentes, tanto que a imprensa passou a ser reconhecida como o “Quarto Poder” a partir do século XVIII-XIX, e, mais recentemente, a internet como o “Quinto Poder”. Nessa jornada, fica claro que no contexto atual, altamente distribuído e sobrecarregado de informação, o poder sobre os fluxos informacionais não está mais apenas nas mãos de quem consegue gerá-los e distribuí-los (detendo audiência), mas está principalmente nas mãos daqueles que conseguem engajar a audiência.

Storytelling: Ímã de atenção e engajamento

Assim, a partir do momento em que uma mensagem alcança determinado público, indubitavelmente, o maior desafio da comunicação passa a ser conquistar a atenção desse público e conseguir engajá-lo para que se interesse pelo nosso assunto – seja ele qual for: educação, vendas ou qualquer bate-papo mundano. Caso contrário, teremos sido apenas parte da distração e não da comunicação. Como diz o ditado popular, “você pode levar um cavalo até a água, mas não pode obrigá-lo a beber”; em outras palavras, não adianta apenas conseguir entregar uma mensagem para um público; para fazê-lo beber da nossa água, precisamos atrair a sua atenção e conseguir engajá-lo. Histórias são excelentes para isso, pois elas exercem um poder inigualável no nosso cérebro. Estudos comprovam que histórias: 

► nos conectam de forma universal;

► representam a nossa maneira natural de compreender o mundo;

► tornam mais fácil lembrar e entender acontecimentos;

► podem produzir oxitocina, hormônio relacionado a confiança e empatia;

Jerome Bruner, um dos principais arquitetos da revolução cognitiva, advoga em seu livro Actual Minds, Possible Worlds que a mente possui um “modo narrativa” que não retém dados e bullet points, e que as pessoas têm 22 vezes mais probabilidade de se lembrarem de uma história do que de uma série de fatos e números.

Assim, boas histórias são extremamente atrativas para o cérebro humano, funcionando como um antídoto contra a falta de atenção. Ao mesmo tempo, histórias são ótimos instrumentos para entrega de sentido, atuando como um fio condutor que organiza fragmentos de informações e emoções, facilitando a compreensão. Por isso, histórias ajudam a explicar conceitos altamente complexos, como é o exemplo do filme Divertidamente, da Disney-Pixar, que, por meio de uma narrativa, mostra a importância científica de cada emoção no corpo humano, até mesmo a tristeza. É justamente por isso que as histórias engajam, fazendo com que estratégias de storytelling tornem-se atualmente mais relevantes do que nunca, pois aquilo que elas obtêm – atenção e engajamento – tem se tornado cada vez mais difícil de se conquistar.

Histórias, decisões e vida 

Histórias são a forma primordial da comunicação humana e de representação da vida, que é formada por uma série de histórias que contamos para nós mesmos e para os outros. As histórias nos definem. Humanos vivem em um mundo de faz de conta: o que nos move não são os acontecimentos ou fatos, mas a nossa interpretação sobre eles. Toda decisão é fundamentada em uma história imaginada, que antevê o seu resultado. Quando mudamos a história, vislumbramos um futuro distinto que, eventualmente, afeta a decisão no presente. Por exemplo, considerando-se determinado fato, um otimista é alguém que imagina uma história futura com desfecho positivo a partir dele, enquanto um pessimista enxerga um desdobramento negativo. O fato pode ser o mesmo, mas os significados atribuídos a ele são distintos, em função da história que imaginamos. Por isso, pessoas com visões (histórias imaginadas) diferentes de mundo tomam decisões distintas – elas enxergam uma outra narrativa para os mesmos fatos.

 

Story + telling 

 

Assim, toda história é composta de duas partes simbióticas: fatos (que são o story) e narrativa (que é o telling). A combinação estratégica de ambas é o que faz um storytelling ser bom ou não. Os mesmos fatos podem ter narrativas diversas, gerando histórias diferentes. Se comparássemos o storytelling a uma fogueira, poderíamos dizer que o story é o fogo, e o telling é a fogueira que revela o fogo: ela pode ser menor, maior, com gravetos úmidos que geram fumaça, ou secos que estalam. É a junção das duas partes que torna a fogueira encantadora, atraente, sedutora ou não.

Nesse sentido, a diferença entre uma boa história – que engaja, atrai a atenção e influencia – e uma ruim é justamente como são articulados os seus elementos: a escolha dos fatos e a forma como eles são narrados. O story e o telling devem ser pensados e adequados para engajar determinado público específico – por exemplo, podemos contar a história de A Bela Adormecida pela ótica da sociedade dos anos 1960, em que a princesa precisa ser salva por um príncipe encantado, ou podemos narrar pelos olhos da bruxa, resultando no filme Malévola, um sucesso recente de bilheteria, que articula uma narrativa mais atrativa para os dias de hoje, sob o ponto de vista de inclusão, diversidade e empoderamento feminino. Perceba que a estrutura de fatos da história é a mesma, mas sendo contada (telling) de forma diferente.

O story: Escolhendo os ingredientes da história

Para criarmos uma história que encante, influencie e conquiste, é essencial, portanto, conhecer o que é relevante para o público que queremos engajar. Somente assim conseguiremos selecionar os fatos que atrairão a atenção seletiva desse público e poderemos desenvolver uma narrativa que o conduza a um processo de transformação (conversão) que faça sentido dentro da sua visão de mundo, o seu universo.

Não é à toa que as melhores histórias são aquelas que conseguem articular dores e prazeres humanos da forma mais simples possível – porque é assim que o nosso cérebro funciona: maximizando prazer, minimizando dores e otimizando a nossa energia nesse processo, para que consigamos sobreviver como indivíduos e como espécie. Assim, o primeiro passo para se criar um storytelling de sucesso é conhecer as dores e prazeres do seu público. Uma ótima maneira de fazer isso é por meio da ferramenta de Mapa de Empatia (bastante usada em Design). Com ela, conseguimos entender quais são as dores do nosso público, o que causa interesse, o que lhe tira o sono, quais as aspirações que o movem, apontando os seus motivadores para prestar a atenção e agir. Essas são as peças para construir histórias que engajem esse público.

 

 

 

 

 

O telling: Fazendo a história aparecer

A partir do momento em que conhecemos o nosso público e aquilo que o move, obtemos os ingredientes para criar uma história, mas isso apenas não basta. Fazer uma boa história é como fazer um bolo: precisamos de uma metodologia que determine como combinar corretamente os ingredientes da forma adequada. Essas metodologias estruturam a forma de contar a história.

Uma das mais eficientes, e consequentemente mais utilizada, estruturas de criação de histórias é a “Estrutura dos Três Atos” – ela funciona, sempre funcionou e provavelmente sempre funcionará porque imita a forma como o cérebro humano atua para resolver problemas. Ela divide a história em três partes (atos), normalmente chamados de início (apresentação), meio (confronto) e fim (resolução). Perceba que um elemento fundamental em uma história é o confronto: sem algum tipo de desequilíbrio que precise ser solucionado, o nosso cérebro não se interessa.

Há 2,5 mil anos, Aristóteles descreveu essa fórmula na forma de pena, medo, catarse: você precisa fazer o público ter pena de uma personagem (normalmente isso é feito fazendo a personagem passar por reveses não merecidos) para criar uma conexão emocional entre o público e essa personagem. Uma vez que essa conexão emocional seja estabelecida, a história passa a ter algum controle sobre a audiência. Conforme você colocar a personagem em situações cada vez piores, o público sente medo, devido à conexão emocional estabelecida, e cria identificação. Quando você livra a personagem daquela ameaça, ou daquela situação ruim, seja ela qual for, a audiência experimenta a catarse. Esses três atos são conhecidos também como sofrimento, luta e superação. 

 

Ato final 

Assim, criar histórias é uma arte que envolve conhecer muito bem o seu público para conseguir obter os ingredientes certos, que permitam o desenvolvimento da narrativa que terá o poder inigualável de atrair e engajar esse público. Para tanto, a estrutura dos três atos é uma arma infalível.

Para conhecer mais sobre storytelling e como aplicar nas mais diversas áreas, recomendo que faça um curso específico para isso, como o que ofereço [on-line, em martha.com.br/st], ou leia alguns dos inúmeros livros que ensinam as mais diversas técnicas para dominar essa arte.

Esse é o primeiro passo para abraçar o storytelling como estratégia de comunicação, que, quando usada corretamente, pode ensinar, iluminar e entreter. Cada história tem um propósito, mesmo que seja transmitir uma simples mensagem. Sem histórias, a humanidade nunca aprenderia com os seus erros, nunca sonharia para realizar grandes feitos ou inovar, e nunca conseguiria ver além do agora – não poderíamos conhecer o passado e nem imaginar o futuro.

Martha Gabriel é escritora, consultora e palestrante nas áreas de marketing digital, inovação e educação. Autora de sete livros, um deles o best-seller Marketing na Era Digital. Palestrante de 5 TEDx, keynote speaker internacional com mais de 75 palestras no exterior e premiada três vezes como melhor palestrante em congressos nos Estados Unidos.

PARA SABER MAIS

  • BADDLEY, A. D. Essentials of human memory. New York: Psychology Press, 1999.
  • BBC Brasil. Quando e por que os humanos começaram a falar? Disponível em: mod.lk/wLEAj. Acesso em: 7 jul. 2020.
  • BECK, J. C.; DAVENPORT, T. H. A economia da atenção. São Paulo: Elsevier, 2001.
  • BOYD, B. On the origin of stories: Evolution, cognition, and fiction. Cambridge, MA: Belknap Press. & Pace-Schott, E. F. (2013). Dreaming as a storytelling instinct. Frontiers in Psychology, 4, 159, 2009.
  • BRUNER, J. Actual Minds, Possible Worlds. Cambridge: Harvard University Press, 1987.
  • CHRISTIAN, D. TED TALKS: A Grande História. Disponível em: mod.lk/vhvyq. Acesso em: 7 jul. 2020.
  • POPOVA, M. The evolution of storytelling. Disponível em: mod.lk/8ecgf. Acesso em: 7 jul. 2020.
  • PRIVACIDADE hackeada. Direção de Jehane Noujaim e Karim Amer. Estados Unidos: Netflix, 2019.
  • UNIVERSITY of Southern California. Something universal occurs in the brain when it processes stories, regardless of language. Disponível em: mod.lk/szrfz. Acesso em: 7 jul. 2020.
  • ZAK, P. J. Future of StoryTelling. Disponível em: mod.lk/mzbxr. Acesso em: 7 jul. 2020.
  • ZAK, P. J. Why Your Brain Loves Good Storytelling. Disponível em: mod.lk/1mXmQ. Acesso em: 7 jul. 2020. 
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8 passos para contar histórias e engajar a turma

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Como o ato de contar histórias pode transformar a sua sala de aula em um espaço colaborativo e criativo com grandes resultados de aprendizagem. Texto Emilly Fidelix Era uma vez, uma história. Quem não se encanta por elas? Histórias são parte de nossas vidas e se manifestam em diferentes formatos: nos registros produzidos em paredes de cavernas – a chamada arte rupestre –, nas histórias de ninar, nos contos de fadas, na literatura, nas fábulas, nas novelas, nos filmes e nos seriados. As histórias estão também na conversa, no diálogo entre amigos que contam um ocorrido, num álbum de família, numa propaganda, nos arquivos pessoais de um grande gênio da humanidade ou de um indivíduo comum. Já deu para entender que storytelling tem tudo a ver com histórias, né? Mas quando falamos sobre utilizar essa técnica na educação, não estamos tratando apenas de fazer a leitura de um livro e mostrar suas ilustrações aos estudantes. Storytelling vai muito além. Vamos descobrir?

Descobrindo um novo mundo


Storytelling trata de contar histórias, aliás, mais que isso: trata-se de contar boas histórias. Essa técnica – já utilizada pelas mídias e pelo entretenimento por meio do cinema e da publicidade, por exemplo – pode ser aproveitada também no âmbito educacional pelos professores. Vamos pensar juntos: Qual é o objetivo de uma propaganda de televisão? Entre tantas outras propagandas, além de vender o produto, quer chamar a atenção de quem assiste. Para isso, recursos como cores, sons, imagens, histórias envolventes e a própria linguagem são explorados para gerar emoções e conexões, mantendo o telespectador engajado na mensagem transmitida. A Coca-Cola, por exemplo, é uma das marcas que mais aplicam com sucesso a técnica do storytelling em suas propagandas, especialmente aquelas de Natal que visam emocionar e passar uma mensagem de esperança e bem-estar a quem assiste (mod.lk/ex_coca). O mesmo ocorre com filmes, seriados e novelas: entre cenas de ação, humor e drama, muitas histórias são contadas e construídas, gerando emoções diversas em quem acompanha, ganhando a atenção plena de quem está do outro lado da tela. Não se engane ao pensar que a técnica pode ser utilizada apenas em comerciais. O storytelling pode ser usado em apresentações de trabalho, de projetos, de propostas, em planejamentos, com o objetivo de explicar um conceito, ilustrar uma emoção, apresentar resultados, convencer, conquistar, inspirar e, principalmente, engajar.

Grandes storytellers e seus segredos


Há alguns indivíduos que se destacaram e mudaram suas vidas por serem grandes storytellers e por utilizarem isso ao seu favor, seja para transmitir sua mensagem, para compartilhar uma causa, para expandir seus negócios ou para se tornar reconhecido em alguma área do conhecimento. É o caso de Steve Jobs, Martin Luther King Jr., Bill Gates e Malala Yousafzai, que nos deixam algumas lições exploradas no livro Storytelling: Aprenda a contar histórias com Steve Jobs, Papa Francisco, Churchill e outras lendas da liderança, de Carmine Gallo:

STEVE JOBS Storytellers inspiradores são eles mesmos inspirados e compartilham o seu entusiasmo com o seu público.ão.

MARTIN LUTHER KING JR. Grandes storytellers se tornam, não nascem assim. Aproveitam as oportunidades para aperfeiçoar suas habilidades de falar em público e de inspirar espectadores. 

BILL GATES Quebre expectativas. Quando as pessoas acham que sabem o que vem adiante, surpreenda. Crie histórias inesperadas, chocantes ou surpreendentes.

MALALA YOUSAFZAI Conte histórias com o coração. Uma boa história pode levar alguém às lágrimas; uma história magnífica pode dar início a um movimento. 

A jornada do herói

O modelo a seguir, também disponibilizado no livro de Carmine Gallo, foi compartilhado por Austin Madison, um animador e criador de storyboards de vários filmes da Pixar, como Ratatouille e Toy Story 3. Em uma apresentação, Austin compartilhou os 7 passos que os filmes da Pixar seguem e que têm como objetivo dar à plateia alguém por quem torcer:

Era uma vez um _________________. (O protagonista/herói)

Todo dia ele _________________. (O mundo desse herói é um mundo comum, cotidiano)

Até que um dia _________________. (Toda história atraente tem um conflito, um desafio para o herói)

Por causa disso _________________. (Uma série de esforços vão acontecer e se conectar em sequência com a cena seguinte – como se tudo fosse se encadeando)

Por causa disso, _________________. (Outras cenas que são conectadas com as anteriores e as seguintes.)

Até que finalmente _________________. (O clímax – o triunfo do bem sobre o mal)

Desde então _________________. (A moral da história)

Agora, veja o exemplo aplicado ao filme Star Wars a partir da história do personagem Luke Skywalker:

Era uma vez um menino de fazenda que queria ser piloto.

Todo dia ele ajudava na fazenda.

Até que um dia sua família é assassinada.

Por causa disso, ele se junta ao lendário Jedi Obi-Wan Kenobi.

Por causa disso, contrata o contrabandista Han Solo para levá-lo a Alderaan.

Até que finalmente Luke alcança seu objetivo e torna-se piloto de guerra e salvador da pátria.

Desde então, Luke está a caminho de se tornar um cavaleiro Jedi.

Um exemplo prático

No meu caso, como professora de História, usei alguns elementos da Jornada do Herói (existem vários modelos para se contar uma história, a Jornada do Herói é uma das possibilidades) para chamar a atenção dos meus estudantes sobre uma temática pouco atraente para a maioria deles: as Cruzadas. Para esse tema, uni duas ferramentas: o storytelling para abordar o assunto e conquistar sua atenção e o Google Maps para aprofundamento e uma experiência de aprendizagem mais significativa. De forma resumida, iniciei a aula em círculo com um bate-papo sobre grupos de pessoas que percorriam, em expedições, longas distâncias, correndo todo o tipo de perigo, desde a fome até doenças para libertar locais sagrados pelos cristãos do domínio islâmico. Algumas pessoas do grupo acreditavam que, ao completarem a jornada, uma mistura de peregrinação com guerra, teriam seus pecados perdoados.

Conforme a história se aprofundava, íamos abordando outros objetivos das Cruzadas e suas características, e muitas perguntas surgiam: “eles eram loucos?”, “Quantos dias eles andavam?”, “Eles iam morrendo pelo caminho?”, “Que distância eles percorreram?” Era o que bastava para convidar a turma à pesquisa. Em equipes, os alunos jogavam os dados que tínhamos disponíveis no Google Maps e descobriam a distância percorrida em cada Cruzada – com um paralelo ao mapa do mundo atual. De repente, eu ouvia: “professora, você não vai acreditar! Na primeira Cruzada, se a gente fizesse no Brasil saindo lá da pontinha do Rio Grande do Sul, a gente teria que andar até a Bahia! Por que eles faziam isso?! Como eles aguentavam?”. Bem, a partir daí, o casamento entre o storytelling e o uso de ferramentas digitais foi o suficiente para que a aprendizagem das Cruzadas fosse um tema mais relevante, significativo e proveitoso para a turma e eu poderia dar sequência a outras coisas interessantes que veríamos juntos sobre aquele período.

Outro exemplo na minha trajetória como professora foi uma série de arquivos fictícios e pessoais dos tempos da Segunda Guerra Mundial que criei a partir do conteúdo que trabalharia. Era uma turma de Ensino Médio e, num primeiro momento, imaginei que, devido à idade e à fase de vida, os alunos não se interessariam e minha ideia iria por água abaixo. Ledo engano: pessoas amam histórias e desafios.

Cortei algumas folhas de papel sulfite, derramei café nelas e deixei que secassem de um dia para o outro. Resultado: folhas marrons, parecendo papel antigo. Juntei restos de papel kraft, papel cartão preto e alguns envelopes de carta. O próximo passo foi a definição dos meus personagens: os “donos” dos arquivos. Assim fiz: duas amigas judias se escondendo com suas famílias; pai e filho alemães, sendo o filho soldado do exército; esposa e marido japoneses, sendo ela enfermeira em guerra, e outros. Escrevi à mão algumas cartas curtas, todas com datas do período entreguerras. Na internet, consultei cartões-postais antigos com imagens da França e da Europa em geral, para simular cartões enviados por correspondência. Também imprimi selos de carta da época e colei nos envelopes. Para as cartas mais longas, escrevi no Word, utilizando a fonte Courier New (semelhante à fonte de máquinas de escrever, para manter a sensação de ser algo antigo) e juntei alguns objetos que pareciam antigos.

Cada equipe ganhou um arquivo e teve de ler, analisar as datas, as informações e descobrir a relação entre o remetente e o destinatário, descobrir o período em que viviam, o que contavam, no que trabalhavam, enfim, uma simulação ao trabalho de pesquisa de um historiador, que tem de lidar com documentos não lineares e que não trazem todas as informações. Ao final, cada equipe apresentou seus personagens e contou suas histórias baseando-se na documentação disponibilizada. Hoje, já adultos, quando os alunos daquela turma me encontram, afirmam: “professora, nunca mais esqueci o que estudamos sobre a Segunda Guerra Mundial e o que aconteceu naquele período”. Tudo porque estudamos um período tão importante, com histórias “reais” em pano de fundo.

Como começar o storytelling?

Agora você deve estar se perguntando: quais lições um educador storyteller pode dar a outro educador que quer explorar essa técnica? Como professora de História e, consequentemente, mas não acidentalmente, uma contadora de histórias, compartilho algumas sugestões:

① Pense de forma interdisciplinar. Todas as áreas do conhecimento estão conectadas; a matemática, a geografia, a história, as linguagens, a arte, a educação física, a química – no universo, não há gavetas separando os temas. Conectar a sua temática com outra área ajuda a dar sentido e demonstrar a relação entre o cotidiano e o que está sendo explorado. Numa receita de bolo, a matemática (quantidades) e a química (fermentação) podem se juntar e se transformar em uma história que envolve a vida cotidiana, algo palpável, concreto.

Vejamos um exemplo.

“Pessoal, vocês não imaginam o que aconteceu comigo ontem! Estava muito feliz pelo aniversário do meu sobrinho que fez 18 anos, então me inspirei, tomei coragem e fiz algo que nunca faço: um bolo! Peguei uma receita qualquer na internet, às pressas e sem perceber que as quantidades não estavam fazendo muito sentido. Ao final percebi que havia colocado pouca farinha, muitos ovos e muito fermento. Imaginem o resultado! O bolo ficou com um aspecto estranho e como usei muito fermento, que tem sua reação causada pela temperatura e que só para quando todo o fermento reage, o bolo crescia sem parar! Eu me lembrei da importância das frações na cozinha, seja para não comer comida salgada demais, para não desperdiçar ou mesmo para não causar essa catástrofe que foi o meu bolo de aniversário. Depois de tudo isso, vamos aprender a fracionar e perceber o quanto utilizamos isso no nosso dia a dia?”

② Domine o conteúdo. Para contar histórias, saiba bem do que está falando. Depois, pense em situações que podem ser reais (a biografia de um ícone daquela área), pessoais (quando você mesmo vivenciou e tirou uma lição) ou criadas (quando você conta situações envolvendo uma história).

③ Use e abuse de elementos atraentes. Pense em todos os elementos e ferramentas necessários à sua história para torná-la mais relevante. Você pode incluir seus alunos como personagens, sua cidade, a escola; pode inserir algum cantor, uma celebridade, alguém muito conhecido na cidade; pode eleger uma música-tema e usar ferramentas simples do cotidiano da turma como gifs, memes, vídeos, imagens, enfim, o que puder ilustrar esse momento ou partes da história.

④ Use sua voz. O tom de voz mais baixo indica a sensação de suspense, de contar um segredo. Isso atrai a atenção dos estudantes para o que vem a seguir. Além disso, um tom de voz mais alto indica ânimo, energia, e se utilizado para enfatizar momentos, destacar falas e indicar sensações como a de susto torna a história mais envolvente.

⑤ Ilustre com objetos reais: Antes de falar sobre frações, você pode levar alguns objetos e pedir à turma que divida, some ou multiplique, por exemplo. Em vez de chegar em sala de aula afirmando: “Turma, hoje vamos estudar o Egito Antigo”, apresente imagens de tumbas, das pirâmides, da esfinge, do Egito hoje, ilustrações de Cleópatra e outros ícones egípcios. Faça hipóteses antes de você entrar de vez na temática.

⑥ Avalie com storytelling. Que tal pensar na avaliação utilizando o storytelling? Crie um personagem que precise de ajuda e, a cada questão respondida, o estudante chega mais perto de salvá-lo do mal.

⑦ Crie zines. Zines são a abreviação de fanzines, muito utilizados por produtores culturais de pequena circulação. São pequenos livros feitos com papel sulfite e que podem ser utilizados como cartões, biografia, livros com histórias curtas, cartões com resumos de conteúdos, etc.

⑧ Desperte a criatividade com ferramentas digitais. Uma boa forma de trabalhar storytelling como aliado no desenvolvimento da competência 4 da BNCC – a comunicação –, são as histórias em quadrinhos, exercitando a expressão a partir de uma variedade de linguagens e plataformas, utilizando a criatividade. Você pode lançar o desafio para os seus alunos através de ferramentas como o Storyboard That (www.storyboardthat.com/pt), o Strip Generator (www.stripgenerator.com) e o Make Beliefs Comix (www.makebeliefscomix.com). Com essas ferramentas digitais, os alunos podem contar sua própria história, a história de um grande cientista, de um escritor ou resumir uma história literária. Além disso, a turma pode sintetizar o conteúdo visto ou trazer curiosidades adicionais sobre a temática estudada.

Nossa história está chegando ao fim, mas para ajudar você, professor, a perceber a importância de conquistar a atenção dos seus estudantes e propiciar uma aprendizagem cada vez mais significativa, finalizo este breve roteiro com uma fala do especialista em Neuroeducação, Francisco Mora, em seu livro Neuroeducación: solo se puede aprender aquello que se ama, publicado em 2013: “A curiosidade, o que é diferente e se destaca no entorno, desperta a emoção. E, com a emoção, se abrem as janelas da atenção, foco necessário para a construção do conhecimento” (p. 66). 

 

Emilly Fidelix é professora há 12 anos, tendo trabalhado com turmas de Educação Infantil ao Ensino Superior. É historiadora, doutoranda em História Global (UFSC) e Especialista em Tecnologias, Comunicação e Técnicas de Ensino (UTFPR). Também é criadora da página no Instagram @seligaprof na qual explora temas como tecnologias e metodologias ativas.

PARA SABER MAIS

GALLO, C. Storytelling: Aprenda a contar histórias com Steve Jobs, Papa Francisco, Churchill e outras lendas da liderança. São Paulo: Alta Books, 2018.

MORA, F. M. Neuroeducación: Solo se puede aprender aquello que se ama. Madrid: Alianza Editorial, 2017.

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Emilly Fidelix

É criadora do @seligaprof, onde impacta milhares de professores de todo o Brasil, palestrante e formadora de professores. É doutoranda em História Cultural (UFSC), especialista em Tecnologias, Comunicação e Técnicas de Ensino (UTFPR), colunista no blog Redes Moderna e professora de pós-graduação no Instituto Singularidades. Atua nas áreas de metodologias ativas, storytelling aplicado à educação e BNCC.

Já faz um ano que muitos educadores tiveram que transformar o formato de suas aulas, levar a sala de aula para casa e adaptar seus planejamentos, mas os efeitos da pandemia ainda estão presentes em nosso cotidiano e 2021 nos traz provas disso. Se antes, precisávamos nos adequar ao formato de ensino remoto emergencial, agora, muitas escolas brasileiras se adaptam na divisão entre estudantes que estão presencialmente, na escola, e outros que estão em casa, assistindo às aulas via transmissão ao vivo.

Algumas das muitas perguntas que tenho recebido nas formações e em mentorias para escolas e professores são: como dar atenção para quem está na sala de aula sem prejudicar quem está em casa? Como criar atividades que funcionem para ambos? Como engajar quem está em casa e com muito menos estímulos do que quem está no presencial? Como posicionar a câmera de modo que quem esteja em casa me acompanhe enquanto caminho pela sala? Dividi essas perguntas em duas grandes áreas, com o objetivo de lhe ajudar, na prática, a ter mais clareza em mente. Vamos lá?

 

Planejamento

  1. Divisão da aula por blocos: você já percebeu que os programas de TV são apresentados em blocos? Na área da comunicação, isso tem vários nomes e eu gosto de pensá-los como “áreas de respiro”, ou seja, há várias etapas e o público, no nosso caso, os estudantes, conhecem as etapas e esperam por elas. Mas agora você deve estar se perguntando: que blocos eu posso criar? Aí vão algumas ideias básicas para você adaptar ao seu contexto e planejamento específico:
  • Bloco 1: explicação e explanação de um conceito, contexto, conteúdo novo: é a exposição, através de uma história, apresentação de uma situação, perguntas instigantes. É o momento de apresentar algo novo aos estudantes, um novo objeto de conhecimento.
  • Bloco 2: Momento destinado ao lançamento de um desafio: questionário, construção de algo, produção de um desenho, criação de um infográfico, responder um questionário, fazer a leitura e interpretação de um texto, por exemplo.
  • Bloco 3: dividido em dois momentos – tira dúvidas para quem está online e tira dúvidas para quem está na sala de aula, auxiliando os estudantes no processo e explorando as dúvidas pontuais de um para todos, já que a dúvida de alguém que está online pode ser a mesma de alguém que está na sala de aula.

Outros blocos poderiam ser: momento de explanação dos trabalhos feitos; momento de avaliação diagnóstica via google formulários, por exemplo.

  1. Combinados: já percebeu que para que os blocos funcionem é preciso que tenhamos alguns combinados, não é? Para isso, sugiro que você use 3 a 5 minutos do início da aula ressaltando e relembrando os combinados, que podem ser, por exemplo: quem está na sala de aula e precisa de ajuda, que use a placa de ajuda e fique no aguardo do professor (essa placa pode ser feita com papel sulfite e reutilizado em todas as aulas). Quem está online e precisa de ajuda pode deixar sua pergunta no chat, por exemplo, enquanto aguarda sua vez de ser atendido.
  2. Comunicação clara e objetiva: Para que as duas etapas anteriores funcionem, é fundamental que todos os estudantes conheçam as etapas do processo em que estão envolvidos: os blocos, os momentos de serem atendidos, o respeito aos colegas e ao professor, a paciência enquanto aguarda para ser auxiliado, por exemplo. Para isso, os combinados precisam ser claros e reforçados em todas as aulas, para que se construa, de fato, uma cultura de pessoas adaptadas aos desafios do momento.

Atenção coordenadores: sua ajuda e apoio nesse momento será fundamental aos professores, já que terão demandas de pessoas que estão em ambientes e experiências de aprendizagem completamente diferentes. Seu suporte é essencial para que se faça o melhor trabalho possível. 

Ferramentas digitais

  1. Jamboard: pode ser uma ótima forma de integrar as atividades que são feitas por todos, já que você pode criar no computador, enquanto espelha a tela para quem está online e projeta para quem está na sala de aula. Nele, você pode criar painel semântico, brainstorming, apresentar atividades, etc. Veja um painel semântico criado por mim, em aula, sobre Egito Antigo:
 
 

A partir dessa criação, feita com elementos icônicos dessa civilização, entramos nos tópicos elencados com as figuras e cada estudante criou seu painel semântico como desafio, apresentando em um segundo momento. Ah, dica bacana: quem está em casa pode apresentar os seus painéis compartilhando a tela, o que torna visível para quem está em sala de aula e vice-versa.

2. Flippty: uma ótima forma de criar desafios envolvendo roletas, bingos, quizzes e outros jogos, que podem ser feitos durante a aula ou como desafio para casa.

3. Kahoot: o site queridinho dos professores em 2020, por propiciar a criação de quizzes envolvendo ranking e gamificação continua forte em 2021. Dica: aproveite para criar perguntar que sirvam como revisão dos conteúdos vistos ou como diagnóstico sobre o que eles já sabem acerca do assunto. Ah, fique de olho nas questões que mais apresentam erros e revise essas questões com os estudantes. Importante: para criar uma experiência realmente interativa e unir os alunos que estão em sala de aula e os que estão online, solicite que os alunos que estão em sala tragam seus smartphones ou disponibilize tablets da escola, em um ambiente que conte com wifi, para que todos possam jogar.

É claro que muitas outras iniciativas podem ser tomadas, sempre com o apoio dos coordenadores e orientadores, que devem estar atentos às demandas e desafios que professores e estudantes estão enfrentando. A união e suporte de toda a equipe é fundamental para que a aprendizagem seja construída com qualidade e significado. Espero que essas sugestões lhe ajudem na sua prática e propiciem outras ideias baseadas no que viu por aqui.

Seguimos compartilhando e aprendendo, juntos. 😀

Prof. Emilly Fidelix

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Os 6 Cs do uso de tecnologias em sala de aula e como eles podem te ajudar na prática

Os 6 Cs do uso de tecnologias em sala de aula e como eles podem te ajudar na prática

Emilly Fidelix

Emilly Fidelix

É criadora do @seligaprof, onde impacta milhares de professores de todo o Brasil, palestrante e formadora de professores. É doutoranda em História Cultural (UFSC), especialista em Tecnologias, Comunicação e Técnicas de Ensino (UTFPR), colunista no blog Redes Moderna e professora de pós-graduação no Instituto Singularidades. Atua nas áreas de metodologias ativas, storytelling aplicado à educação e BNCC.

O uso de tecnologias digitais tem crescido de forma expressiva nos últimos anos quando o assunto é educação. Além disso, a Base Nacional Comum Curricular traz entre suas competências gerais, a Cultura Digital, demonstrando a total importância dessa abordagem pelas escolas. Por isso, hoje vamos falar dos 6 Cs da utilização da tecnologia, conceito trazido pelo autor Josh Stumpenhorst:

 

Colaborar: Como o uso dessa ferramenta pode tornar a colaboração uma das bases dessa atividade/desafio? A colaboração envolve o trabalho em grupo, mas também, a comunicação com pessoas de outras instituições, o trabalho em conjunto com outros professores ou profissionais de outras áreas. Que tal trazer um professor de outro país para falar sobre a sua cultura? Sobre sua experiência educacional, sobre suas vivências em determinada área? Imagine a experiência de compartilhamento de ideias e de empatia global gerada a partir de uma simples videochamada com alguém que mora do outro lado do mundo ou do outro lado do nosso país? Hoje, com as redes sociais essas ações são muito simples de serem articuladas. Nesse sentido, um projeto muito interessante e ligado à colaboração em rede é o Global Read Aloud (ler em voz alta), em que jovens de todo o mundo votam sobre um livro a ser lido coletivamente, para então colaborar e compartilhar sua experiência de leitura e uma série de outras atividades. O objetivo do projeto é aproximar crianças e jovens de todo o mundo por meio do interesse em literatura.

Dica de ferramentas colaborativas: Google docs, Trello e Jamboard.

 

Comunicar: Como eu posso ajudar os meus estudantes a desenvolverem habilidades em comunicação? Aqui é preciso entendermos a comunicação como forma de expressão que vai muito além da comunicação oral, como a oratória, por exemplo. Pense em formatos como podcasts, vídeo-minuto, foto-denúncia.

Dicas de ferramentas para a comunicaçãowww.vocaroo.com, app Inshot e a câmera do celular.

 

Consumir: Como eu posso desenvolver momentos envoltos no consumo de informações de qualidade pelos meus estudantes? Como ajudá-los a fazerem uma pesquisa confiável? Ou a estarem bem informados? A internet contém um vasto universo de informações, nem sempre confiáveis e nem sempre qualificadas, tratar de temas como fake news, por exemplo, é estar de acordo, também, com as propostas da BNCC.

Dicas de ferramentas para desenvolver o consumo de informações de qualidade na internetwww.projetocomprova.com.br (identificação de fake news), https://scholar.google.com/ (google acadêmico, com artigos científicos), https://bndigital.bn.gov.br/ (acervo histórico digitalizado).

 

Conveniência: Como posso usar ferramentas digitais para poupar tempo? Planejar aulas em ferramentas digitais em arquivos que ficam salvos na nuvem é uma boa forma de aproveitar esses para que não precisemos fazer um retrabalho posteriormente, além de formar um repositório de conteúdos facilmente editáveis. Além disso, avaliações diagnósticas, por exemplo, que levariam muito tempo e custariam muitas folhas e tinta de impressora, podem ser facilmente criadas em ferramentas específicas.

Dicas de ferramentas para conveniência: Google Docs (para planejar e ter todos os seus planejamentos salvos na nuvem, facilmente editáveis) Google Formulários (para avaliações diagnósticas rápidas, bem como quizzes).

 

Criar: A grande potência do uso de ferramentas digitais com os estudantes é a criação. Que tal solicitar que criem blogs, infográficos, histórias em quadrinhos, ebooks, cartazes multimídia?

Ferramentas para criação: www.sites.google.comhttps://infogram.com/pt/https://edu.pixton.com/solo/

https://crello.com/pt/create/ebooks/http://edu.glogster.com/.

 

Questão para refletir: Como posso aproveitar o potencial de tecnologias digitais para o processo de aprendizagem e não somente como suporte para o ensino?

 

Um abraço e até a próxima,

Emilly

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3 ideias práticas de experiências de aprendizagem para explorar no ensino remoto

3 ideias práticas de experiências de aprendizagem para explorar no ensino remoto

Emilly Fidelix

Emilly Fidelix

É criadora do @seligaprof, onde impacta milhares de professores de todo o Brasil, palestrante e formadora de professores. É doutoranda em História Cultural (UFSC), especialista em Tecnologias, Comunicação e Técnicas de Ensino (UTFPR), colunista no blog Redes Moderna e professora de pós-graduação no Instituto Singularidades. Atua nas áreas de metodologias ativas, storytelling aplicado à educação e BNCC.

Experiência de aprendizagem é certamente um dos termos que mais veremos num futuro próximo, especialmente com a retomada das discussões envoltas na aplicação ideal da BNCC através do desenvolvimento de competências e habilidades, bem como à aderência a novos métodos, que envolvam a experimentação, a criação e, consequentemente, o protagonismo dos estudantes nesse processo.

Nesse percurso, tem ganhado espaço a teoria de David Ausubel, ainda pouco estudada e explorada nos cursos de licenciatura e pedagogia: a aprendizagem significativa. Como construir, nesse sentido, experiências de aprendizagem que não se baseiam apenas na transferência de informações? Como fica o papel do educador num cenário de constantes mudanças na educação? Como desenvolver habilidades e competências? E mais desafiador ainda, como fazer tudo isso num modelo remoto?

Primeiro, precisamos estar alinhados em um ponto fundamental: experiências de aprendizagem. Perceba que o foco não está na experiência de ensino. O nosso olhar se volta para como os estudantes aprenderão, como construirão esse aprendizado. E quando falamos de experiências, estamos falando de experimentação, de criação, de teste, de verificação, de reflexão, de momentos de aprendizagem que envolvam práticas multissensoriais, que atendam aos diversos estilos de aprendizagem, que sejam desafiadoras, mas também, motivadoras, instigantes.

A sequência didática da construção e planejamento das diversas etapas é papo para outro artigo, aqui, vamos focar na construção de desafios e atividades que podem ser feitas em diversos formatos de aula, aproveitando sempre recursos simples e baseados na BNCC.

Complicado? Na teoria, pode parecer. Mas se olharmos a riqueza de possibilidades que temos, pensando juntos, simplificamos. Vamos lá?

 
  • Produção de videominuto: uma ótima oportunidade para desenvolver a comunicação, a criatividade, a capacidade de síntese, a elaboração de roteiros, a produção colaborativa e a experiência autoral. Videominuto é uma das práticas que aparecem na BNCC, especialmente na área de linguagens, mas pode ser explorada em todas as áreas, propiciando produções que envolvam temáticas diversas.

Exercício: Que temática trabalharei em breve, que me possibilita utilizar esse recurso como um desafio instigante aos meus estudantes?

 
  •  Produção de podcast: nós já vimos por aqui uma ferramenta muito simples e online para criar podcasts com o celular ou computador, o site: https://vocaroo.com. Que tal passar esse desafio aos estudantes, para que contem histórias, realizem entrevistas breves com familiares, produzam um curto programa de rádio fictícia, criem um roteiro focado em informações científicas, identificação de fake news ou trazendo fatos curiosos ou biográficos sobre um ícone?

Exercício: Como posso aproveitar a produção de podcasts com meus estudantes, levando em consideração as temáticas a serem trabalhadas e a idade deles?

 
  • Exercícios que envolvam produtos que os estudantes têm em casa: a experiência de explorar um conteúdo através de produtos, embalagens, objetos que se tem em casa torna-se muito mais significativa que ver uma ilustração estática. Que tal explorar elementos químicos de um produto de limpeza? Ou a tabela nutricional de na embalagem de um alimento? E se explorarmos a história de uma civilização antiga iniciando um debate sobre a história da nossa própria família? E se trabalharmos as formas geométricas a partir de objetos que temos em casa?

Exercício: realize uma lista dos seus próximos conteúdos e temáticas e pense em formas de explorá-lo a partir de objetos que os estudantes tenham em casa. Os objetos não precisam estar inteiramente interligados ao conteúdo, mas podem se tornar um ponto de levantamento de ideias, discussões e reflexões para entrar no tema, por exemplo.

 

Ponto de atenção: ao final de cada processo de criação ou discussão, explorar com os estudantes o que aprenderam no processo, como conectaram os pontos, no que erraram e o que aprenderam com tal experiência.

Ideias são compartilhadas para que você, educador, adapte à sua realidade, aos seus objetivos pedagógicos e podem ser transformadas em outras ideias, que caibam ao seu público e formato de aulas adotado. Desejo que essas ideias se multipliquem em outras ideias simples, mas efetivas na construção do conhecimento nesse momento desafiador.

Seguimos juntos!

Professora Emilly Fidelix

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5 temáticas para você trabalhar a competência geral 5: cultura digital

5 temáticas para você trabalhar a competência geral 5: cultura digital

Emilly Fidelix

Emilly Fidelix

É criadora do @seligaprof, onde impacta milhares de professores de todo o Brasil, palestrante e formadora de professores. É doutoranda em História Cultural (UFSC), especialista em Tecnologias, Comunicação e Técnicas de Ensino (UTFPR), colunista no blog Redes Moderna e professora de pós-graduação no Instituto Singularidades. Atua nas áreas de metodologias ativas, storytelling aplicado à educação e BNCC.

Olá, educadores! Hoje o nosso papo envolverá uma temática que está em alta nos últimos anos: tecnologias digitais. Esse tema, que até alguns anos atrás era pouco discutido no cenário educacional brasileiro, salvo algumas exceções, cresceu timidamente e despontou com a Base Nacional Comum Curricular, quando nos deparamos com uma das competências gerais: Cultura digital.

 

Nesse sentido, a BNCC está trazendo para o debate, a importância de aderirmos a essas ferramentas como recursos pedagógicos, mas também como fonte de análise, de reflexão, de pensamento crítico, não apenas para consumir, mas para criar. Veja o que o documento nos diz:

 

“a cultura digital tem promovido mudanças sociais significativas nas sociedades contemporâneas. Em decorrência do avanço e da multiplicação das tecnologias de informação e comunicação e do crescente acesso a elas pela maior disponibilidade de computadores, telefones celulares, tablets e afins, os estudantes estão dinamicamente inseridos nessa cultura, não somente como consumidores. Os jovens têm se engajado cada vez mais como protagonistas da cultura digital, envolvendo-se diretamente em novas formas de interação multimidiática e multimodal e de atuação social em rede, que se realizam de modo cada vez mais ágil” (BNCC, p. 61).

 

Sobre essa competência, a BNCC nos diz que é preciso:

Compreender, utilizar e criar tecnologias digitais de informação e comunicação de forma crítica, significativa, reflexiva e ética nas diversas práticas sociais (incluindo as escolares) para se comunicar, acessar e disseminar informações, produzir conhecimentos, resolver problemas e exercer protagonismo e autoria na vida pessoal e coletiva (p. 9).

 
 

Por isso, uma formação que envolva a temática de forma crítica, significativa, reflexiva e ética se faz necessária: não basta o uso pelo uso, mas o uso ético, responsável e seguro. A partir disso, sugiro que você faça num caderno ou recurso digital, um exercício de brainstorming para construir ideias e possibilidades sobre como você pode trabalhar a competência geral 5 da BNCC com os seus estudantes. Para isso, dividi a competência em 5 temáticas-pilares, que você pode mudar de acordo com o seu componente curricular e/ou planejamento. Vamos lá?

 
 

Pense sempre em formas de adaptar ao seu contexto, partindo de temáticas que facilmente se encaixam nas discussões, como fake news nas ciências, por exemplo, envolvendo vacinas. Outra forma sobre como refletir sobre o impacto das redes sociais em língua portuguesa, por exemplo, seria trabalhar a partir de crônicas, as sensações que os estudantes já tiveram a partir da comparação, a dita vida perfeita, o medo do julgamento do outro ou mesmo discussões envolvendo ansiedade e depressão com os jovens.

Também é importante pensarmos no uso de recursos digitais para que os estudantes criem a partir da colaboração, do senso crítico e explorem diferentes plataformas que lhes permitam diversas formas de se expressar: a partir do desenho, do texto, da história em quadrinhos, dos memes, de podcasts.

Os caminhos são muitos. É interessante que cada educador estude a BNCC e, especialmente o que o documento propõe a cada componente curricular, para que então, analise as possibilidades e as inclua, pouco a pouco, à sua prática pedagógica.

 

Boa jornada, educadores! Um grande abraço digital!

Prof. Emilly Fidelix | @seligaprof

 

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