Mudança de Mindset para uma Educação Inovadora

Mudança de Mindset para uma Educação Inovadora

Débora Garofalo

Débora Garofalo

Débora Garofalo é formada em Letras e Pedagogia, com especialização em Língua Portuguesa pela Unicamp, Mestra em Educação pela PUC-SP e FabLearn Fellow, Columbia, EUA. Professora há 16 anos da rede publica de SP, sendo idealizadora do trabalho de Robótica com Sucata que se tornou uma política pública. Atualmente é Coordenadora do Centro de Inovação da Secretaria Estadual de Educação do Estado de São Paulo e colunista das Redes Inovadora na Editora Moderna.

Integrante da comissão de Direitos Humanos da Cidade de São Paulo e Palestrante em grandes eventos Nacionais e Internacionais entre eles, Latinoware, Campus Party, Bett Educar, Havard, EUA, Oxford em Londres, Buenos Aires na Argentina, Ecole Polytechnique, França. Pelo trabalho realizado na Educação Pública, recebeu diversos prêmios importantes, entre eles: Professores do Brasil 2018, Desafio de Aprendizagem Criativa do MIT 2019, Medalha de Pacificadores da ONU 2019 e considerada uma 10 melhores Professoras do Mundo pelo Global Teacher Prize 2019, Nobel da Educação.

Mudar a maneira e a forma que ensinamos não é uma tarefa fácil. Principalmente pelo processo de formação docente, falta de infraestrutura das unidades escolares, ausência de formação docente em serviço e constantes mudanças nas políticas públicas.  

 Para realizar uma mudança na maneira de conceber a educaçãoé necessário romper com velhos paradigmas e anos de uma abordagem pedagógica pautada na transmissão de conhecimento, dando lugar a mudança de mindset e novas formas de conceber a educação inovadora.  

Neste sentido, a palavra mindset pode ser compreendida como um conjunto de atividades mentais e ganha força ao desenvolver novas competências, habilidades e formas para o professor assumir o protagonismo e emergir novas abordagens pedagógicas como um mediador do conhecimento e parceiro do estudante.  

 

Para saber mais 

 Existealgumas formas de mindset que podem nos fazer ser otimista e ou pessimista, nos âmbitos profissionais e pessoais, descritos através de pesquisas realizadas pela Dra. Carol Dweckph.D em seu livro, Mindset – a nova psicologia do sucesso. 

Na obra, a autora descreve alguns tipos de mindset como os fixos que são pessoas que não acreditam e determinadas capacidades, em que desafios são vistos como oportunidades de julgamento. E de crescimento que são pessoas otimistas, que acreditam em seus talentos e possuem resiliência frente a desafios. 

 

A chave do sucesso de uma educação inovadora, começa com a atitude em nós professores. Neste sentido, para iniciar o processo de mudança de mindset na educação é necessário darmos este passo, acreditando em nosso potencial, praticando a empatia, definindo metas tangíveis e pensando fora da caixa.  A seguir, compartilho algumas dicas e reflexões que poderão ajudar nesta mudança.

 

Tematização docente 

A tematização docente está diretamente relacionada com o perfil do professor enquanto pesquisador da sua prática, autoavaliando em sala de aula. Para isso, ele pode combinar com os estudantes e seus familiares que irá gravar algumas aulas para sua autorreflexão. É importante ter o apoio dos familiares e estudantes e realizar um termo de consentimento para esta ação. 

Ao realizar essa gravação, o professor poderá rever suas ações, tomadas decisões e principalmente compreender se está no caminho certo com a turma. Enquanto docente, fiz muito este processo e alguns casos percebi que estava sendo diretiva em minhas ações de forma involuntária e ou ainda deixado de intervir em algumas situações pedagógicas com receio dos estudantes não darem suas contribuições. Enquanto profissionais, somos todos aprendentes e devemos rever nossas rotas! 

Outra forma são as rubricas de avaliação, que além de avaliar o processo, com a participação dos estudantes podem e devem avaliar o professor e seu trabalho, criando uma nova cultura de aprendizado e de escuta ativa. 

Novas abordagens de ensino 

Romper com velhos paradigmas também significa permitir novas formas de aprendizagens. As metodologias ativas são um bom exemplo disso, porque podem ser trabalhadas em suas diferentes modalidades na busca da personalização e no respeito aos diferentes ritmos de aprendizagem, ao despertar os estudantes a uma nova cultura em que o professor será parceiro na construção da autoria e do protagonismo juvenil. 

Ambiente de aprendizagem 

 O ambiente de aprendizagem tem uma grande importância ao ensino. Para trabalhar com novas abordagens é essencial cuidar do espaço que deve trazer valores e aspectos de segurança, mas também elementos de uma educação integral, favorecendo a colaboração, empatia e trazendo recursos que possam personalizar este ambiente.  

Inclusão de uma educação inovadora 

Possibilitar novas formas de ensino requer possibilitar a inserção da inovação na sala de aula e no processo de ensino em frentes que possibilitam vivências significativas como a cultura maker, cultura digital, gamificação, programação (que permite o trabalho com narrativas digitaisstorytelling, jogos), robótica, entre outros, em que o estudante assume o centro do processo de aprendizagem e o professor exerce o papel central de apoiar novos caminhos. 

Incentive o mindset de crescimento dos estudantes 

 É necessário ressaltar, enaltecer e incentivar as habilidades dos estudantes. São pequenos gestos que podem transformar vidas e deixá-los mais seguros e acreditarem em si e em todo o seu potencial. 

Um grande abraço e até a próxima,

Débora

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Plataformas adaptativas – O que são e como podem (ou não) contribuir para a recuperação da aprendizagem

Plataformas adaptativas – O que são e como podem (ou não) contribuir para a recuperação da aprendizagem

Débora Garofalo

Débora Garofalo

É formada em Letras e Pedagogia, com especialização em Língua Portuguesa pela Unicamp, Mestra em Educação pela PUC-SP e FabLearn Fellow, Columbia, EUA. Professora há 16 anos da rede publica de SP, sendo idealizadora do trabalho de Robótica com Sucata que se tornou uma política pública. Atualmente é Coordenadora do Centro de Inovação da Secretaria Estadual de Educação do Estado de São Paulo e colunista das Redes Inovadora na Editora Moderna.

Com o avanço da pandemia é preciso pensarmos em maneiras e formas de manter o ensino remoto ou híbrido E como eles podem apoiar a recuperação da aprendizagem 

 Após um ano ministrando aulas no formato remoto, temos pesquisas e literaturas sobre o assunto, como o recente livro lançado pelo Professor Fernando Reimers, da Universidade de Havard Leading Education Through Covid-19 (que ainda não possui tradução para o português), em que o autor aponta que a inovação e a colaboração são chaves para o sucesso educacional 

 A pesquisa revela que somente uma aula ao vivo não é eficaz para contribuir com a aprendizagem. O que já sabemosuma vez que nada substitui as aulas e o contato presencial de estudantes e professores 

 A tecnologia deve ser utilizada sempre como propulsora ao processo, com objetivos e propósitos clarosPara não corrermos o risco de voltarmos a antigos modelos de aprendizagem tendo o professor como transmissor de conhecimento e não como o mediador do processo. 

 Estes são pontos essenciais na hora de escolher uma tecnologia ou uma plataforma adaptativa que devem ser acompanhadas de novas abordagens de ensino que visam contribuir com o processo e com o desenvolvimento de habilidades elencadas no planejamento do professor.  

Para além da Tecnologia 

 O uso da tecnologia possui relevância para a educação se vier acompanhada de novas abordagens ativas de ensino, principalmente porque um dos aprendizados deste período é a importância de cultivar as habilidades no desenvolvimento da autonomia competências digitais para professores e estudantes. 

 Neste quesito, as metodologias ativas e o ensino híbrido podem (e devem) contribuir para a eficácia deste processo ao compreender que ela parte de problemas reais, aprendizagem por projetos e que podem ser trabalhadas em diferentes modalidades como a sala de aula invertida que atua em três momentos – antes, durante e depois na busca da personalização de ensino, protagonismo juvenil, além de potencializar os momentos de aula síncrona.  

 A pandemia vem aumentando as desigualdades sociais e o grande desafio é encontrar formas de recuperar o aprendizado com eficácia na aprendizagem, garantindo uma participação efetiva dos estudantes diante dos diferentes ciclos de escolarização, que neste momento vem sofrendo com consequências diretas na aprendizagem e indireta devido a crise econômica e social das famílias. É neste cenário que as plataformas adaptativas podem atuar e contribuir com o processo de recuperação da aprendizagem, desde que considere uma série de fatores. 

 Para não cair em armadilhas 

Como vimos as plataformas adaptativas podem contribuir para a aprendizagem, mas não basta apenas dar acesso aos estudantes, é preciso analisá-la, avaliar o seu conteúdo e verificar se existe sinergia com o currículo e com a proposta pedagógica do professor em curso, cuidando para que seja relevante aos estudantes e não apenas seja utilizada como testes de múltiplas escolhas.  

 Para eficácia é necessário a compreensão de que as plataformas adaptativas apoiam a aprendizagem em curso e não o processo inicial de um conteúdo do zero, por isso, é necessário boa gestão, formação profissional e garantir que todos os estudantes consigam ter acesso aos softwares 

 Plataformas adaptativas  

 As plataformas adaptativas são softwares inteligentes através do uso do Big Data, que podem ou não utilizar da gamificação para propor atividades diferenciadas para os estudantesrespeitando diferentes etapas de ensino e fases de conhecimento na busca por autonomia e personalização do processo cognitivo 

 Assim, o professor pode avaliar e fazer uso de plataformas diferenciadas que auxiliem os estudantes em suas dificuldades, pois, a maioria utiliza algoritmos que analisam o desempenho em tempo real e sugerem conteúdos que variam de vídeos, games, exercícios, leituras, entre outros, de forma específica e individualizada aos alunosSeparamos algumas sugestões para que possam conhecer e usar em sala de aula.  

 

Geekie Games é uma plataforma brasileira de ensino adaptativo, que oferece ensino personalizado por meio de jogos para ajudar estudantes a se prepararem para o Enem (Exame Nacional do Ensino Médio). Depois que cada estudante realiza os simulados on-line, os algoritmos identificam suas necessidades e dificuldades e a melhor maneira de ensiná-lo, além de apresentar essas informações para que o professor também possa adaptar suas aulas 

 A plataforma opera na versão gratuita e na versão paga, entretanto na versão gratuita é possível ter acesso a todo o conteúdo de videoaulas e aos simulados. Para isso, basta pesquisar uma palavra-chave no campo de busca ou filtrar pela disciplina.  

 

A DreamBox Learning é uma plataforma adaptativa de matemática para o ensino fundamental (anos iniciais), que utiliza a lógica da gamificação. O site está em inglês é possível a tradução e ou ainda ser usado para o ensino bilíngue.

 

A ScootPad é uma plataforma adaptativa para estudantes do ensino fundamental (anos iniciais e finais) desenvolverem habilidades de leitura e matemática. Com planos gratuitos, o site oferece informações em tempo real para os professores e aprendizado por meio de jogos, tem parcerias com o Google in Education, o Edmodo e a Schoology Platform. A plataforma está aberta para apoiar o ensino neste momento de pandemia 

 

Plataforma Adaptativa de Matemática (PAM) é voltada para estudantes do ensino fundamental e médio e oferece um sistema de avaliação integral com relatórios de desenvolvimento para alunos e professores que conta com 100 mil exercícios, além de glossários, arquivos de textos e quizzes, promovendo a personalização tanto individual como para um grupo de estudantes, de acordo com as semelhanças de suas necessidades, conhecimentos e desenvolvimentos de habilidades.  

 

Um abraço e até a próxima!

Débora

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Storytelling: A arte de encantar, influenciar e conquistar

Storytelling: A arte de encantar, influenciar e conquistar

Histórias e metodologias para transformar a sua realidade e engajar toda a comunidade escolar.

Apesar de ser um termo que ganha cada vez mais relevância na era digital, storytelling é uma prática que remonta ao início da história da humanidade e está intimamente ligada à comunicação que permitiu a nossa evolução para que nos tornássemos a espécie dominante do planeta. A sua importância é tão fundamental para a nossa existência que nossos cérebros são configurados biologicamente para prestar atenção em histórias. Por isso, desde sempre, saber contar boas histórias é uma das estratégias mais eficientes para engajar cérebros, e, consequentemente, quem eles comandam: pessoas. 

Histórias existem muito antes de poderem ser registradas: uma das primeiras evidências de storytelling são as imagens das cavernas de Lascaux na França, que datam de aproximadamente 17 mil anos atrás, retratando uma variedade de desenhos de animais e algumas poucas criaturas humanoides. Essas figuras são esforços combinados de várias gerações representando os seus rituais: contando histórias, que também sugerem que o ser humano não era o foco central, e que o drama daquele período do Paleolítico acontecia, realmente, entre a megafauna – carnívoros e grandes herbívoros.

A linguagem verbal, por sua vez, pode ser rastreada em um período que vai bem mais longe, até pelo menos 50 mil anos atrás, sendo que a maioria dos linguistas acredita que a sua origem é muito mais antiga do que isso, possivelmente há mais de 500 mil anos. No entanto, para conseguir construir narrativas – portanto, histórias –, foi necessário que a linguagem verbal evoluísse de uma protolíngua para estruturas mais complexas, como a da maioria das línguas que chamamos de antigas, e que não chegam a ter mais de 6 mil anos. A escrita, por sua vez, entra em cena mais recentemente, há aproximadamente 5 mil anos, ampliando o poder de propagação das histórias.

Nesse sentido, ao longo do tempo, as formas com que as histórias eram contadas – tanto linguagens, quanto seus suportes – foram mudando drasticamente, adquirindo características adicionais conforme os avanços tecnológicos passaram a oferecer novas possibilidades para criá-las, registrá-las, reproduzi-las e propagá-las. A imagem da figura 1 mostra algumas das principais formas de contar histórias desde a Antiguidade até a era digital, em que surgem constantemente novos suportes de mídia, que continuamente acrescentam mais recursos para o espaço narrativo. Virtualmente, podemos dizer que não existem limites para expandirmos o universo ficcional – tudo pode ser utilizado e mixado para criar, registrar, contar e propagar histórias. 

O processo de evolução da narrativa é decorrente da simbiose natural entre linguagens e suportes, que vão mutuamente se modificando, de forma contínua, elevando o grau de complexidade da comunicação, e, consequentemente, do storytelling. Esse caminho culmina no contexto atual, altamente transmidiático, que se desenvolveu (e continua a se desenvolver) em sintonia com a evolução da própria humanidade, que sofre, também, um aumento gradativo de complexidade.

Exemplos disso são as histórias da Marvel ou DC Comics, nas quais não apenas os personagens, mas todo o universo ficcional das séries e filmes se relacionam entre si, expandindo-se, também, nesse processo, para outros suportes: TV, cinema, jogos, etc. Nesses casos, a história passa a não caber mais em apenas uma mídia, ou uma narrativa, ou um suporte único, transcendendo-se tanto em forma quanto em conteúdo, apropriando-se, para tanto, de todas as possibilidades tecnológicas e de linguagem possíveis. Além da infinidade das potenciais inter-relações transmidiáticas que a fluidez do ambiente digital oferece, os personagens também cresceram consideravelmente na complexidade da sua construção, quando comparados com os das narrativas populares usuais do século passado, que tendiam a uma dualidade ingênua entre bem e mal, herói perfeito ou vilão eterno. Hoje, o caráter dos personagens oscila com muito mais frequência entre os extremos, de uma forma muito mais sutil e dinâmica dentro da narrativa, representando de modo bem mais verossímil a essência complexa do ser humano. 

Economia da atenção, era da distração

Essa multiplicidade crescente de plataformas que o ambiente digital proporciona não apenas contribui para o aumento da complexidade das histórias, mas traz consigo duas consequências adicionais diretas na comunicação:

① explosão de conteúdos, criando sobrecarga informacional;

② fragmentação da informação, favorecendo a interrupção e a distração.

Nesse contexto, em que sofremos cada vez mais com a sobrecarga, com a fragmentação e com a dispersão informacionais, experimentamos um aumento considerável não apenas na concorrência pela nossa atenção, mas também, e principalmente, na dificuldade de conseguir extrair sentido e utilidade desse tsunami de conteúdos que nos assola continuamente. Isso tudo nos leva à Era da Distração, em que é muito mais fácil e tentador se distrair a todo momento na superficialidade desse volume gigante de informação, que nos dá a “ilusão de saber” (um dos fatores de propagação de fake news), do que gastar tempo e energia para processar significado, aprofundar conhecimento para, realmente, adquirir o “saber”. Essa é uma das grandes ironias dos nossos tempos: a riqueza informacional é cada vez mais abundante e disponível a todos, mas apenas aqueles que empenham o esforço necessário para conseguir selecionar o que realmente tem valor para suas vidas conseguem manter o foco para alcançar seus objetivos. Os demais tendem a ser levados pelas correntes dos fluxos informacionais de duas formas principais: à deriva, ou dirigidos por aqueles que sabem navegá-los.

Nesse sentido, aqueles que dominam os fluxos informacionais exercem um grande poder social – tanto para educação e evolução, quanto para alienação e manipulação. Isso não é novidade, e acontece desde sempre. A clássica estratégia panem et circenses, que surgiu na Roma Antiga, continua plenamente em uso hoje em dia para distrair e manipular massas. No entanto, se na Antiguidade romana, o poder predominante sobre os fluxos de informação era dos governantes, com o passar dos séculos esse poder foi se tornando acessível também para outros agentes, tanto que a imprensa passou a ser reconhecida como o “Quarto Poder” a partir do século XVIII-XIX, e, mais recentemente, a internet como o “Quinto Poder”. Nessa jornada, fica claro que no contexto atual, altamente distribuído e sobrecarregado de informação, o poder sobre os fluxos informacionais não está mais apenas nas mãos de quem consegue gerá-los e distribuí-los (detendo audiência), mas está principalmente nas mãos daqueles que conseguem engajar a audiência.

Storytelling: Ímã de atenção e engajamento

Assim, a partir do momento em que uma mensagem alcança determinado público, indubitavelmente, o maior desafio da comunicação passa a ser conquistar a atenção desse público e conseguir engajá-lo para que se interesse pelo nosso assunto – seja ele qual for: educação, vendas ou qualquer bate-papo mundano. Caso contrário, teremos sido apenas parte da distração e não da comunicação. Como diz o ditado popular, “você pode levar um cavalo até a água, mas não pode obrigá-lo a beber”; em outras palavras, não adianta apenas conseguir entregar uma mensagem para um público; para fazê-lo beber da nossa água, precisamos atrair a sua atenção e conseguir engajá-lo. Histórias são excelentes para isso, pois elas exercem um poder inigualável no nosso cérebro. Estudos comprovam que histórias: 

► nos conectam de forma universal;

► representam a nossa maneira natural de compreender o mundo;

► tornam mais fácil lembrar e entender acontecimentos;

► podem produzir oxitocina, hormônio relacionado a confiança e empatia;

Jerome Bruner, um dos principais arquitetos da revolução cognitiva, advoga em seu livro Actual Minds, Possible Worlds que a mente possui um “modo narrativa” que não retém dados e bullet points, e que as pessoas têm 22 vezes mais probabilidade de se lembrarem de uma história do que de uma série de fatos e números.

Assim, boas histórias são extremamente atrativas para o cérebro humano, funcionando como um antídoto contra a falta de atenção. Ao mesmo tempo, histórias são ótimos instrumentos para entrega de sentido, atuando como um fio condutor que organiza fragmentos de informações e emoções, facilitando a compreensão. Por isso, histórias ajudam a explicar conceitos altamente complexos, como é o exemplo do filme Divertidamente, da Disney-Pixar, que, por meio de uma narrativa, mostra a importância científica de cada emoção no corpo humano, até mesmo a tristeza. É justamente por isso que as histórias engajam, fazendo com que estratégias de storytelling tornem-se atualmente mais relevantes do que nunca, pois aquilo que elas obtêm – atenção e engajamento – tem se tornado cada vez mais difícil de se conquistar.

Histórias, decisões e vida 

Histórias são a forma primordial da comunicação humana e de representação da vida, que é formada por uma série de histórias que contamos para nós mesmos e para os outros. As histórias nos definem. Humanos vivem em um mundo de faz de conta: o que nos move não são os acontecimentos ou fatos, mas a nossa interpretação sobre eles. Toda decisão é fundamentada em uma história imaginada, que antevê o seu resultado. Quando mudamos a história, vislumbramos um futuro distinto que, eventualmente, afeta a decisão no presente. Por exemplo, considerando-se determinado fato, um otimista é alguém que imagina uma história futura com desfecho positivo a partir dele, enquanto um pessimista enxerga um desdobramento negativo. O fato pode ser o mesmo, mas os significados atribuídos a ele são distintos, em função da história que imaginamos. Por isso, pessoas com visões (histórias imaginadas) diferentes de mundo tomam decisões distintas – elas enxergam uma outra narrativa para os mesmos fatos.

 

Story + telling 

 

Assim, toda história é composta de duas partes simbióticas: fatos (que são o story) e narrativa (que é o telling). A combinação estratégica de ambas é o que faz um storytelling ser bom ou não. Os mesmos fatos podem ter narrativas diversas, gerando histórias diferentes. Se comparássemos o storytelling a uma fogueira, poderíamos dizer que o story é o fogo, e o telling é a fogueira que revela o fogo: ela pode ser menor, maior, com gravetos úmidos que geram fumaça, ou secos que estalam. É a junção das duas partes que torna a fogueira encantadora, atraente, sedutora ou não.

Nesse sentido, a diferença entre uma boa história – que engaja, atrai a atenção e influencia – e uma ruim é justamente como são articulados os seus elementos: a escolha dos fatos e a forma como eles são narrados. O story e o telling devem ser pensados e adequados para engajar determinado público específico – por exemplo, podemos contar a história de A Bela Adormecida pela ótica da sociedade dos anos 1960, em que a princesa precisa ser salva por um príncipe encantado, ou podemos narrar pelos olhos da bruxa, resultando no filme Malévola, um sucesso recente de bilheteria, que articula uma narrativa mais atrativa para os dias de hoje, sob o ponto de vista de inclusão, diversidade e empoderamento feminino. Perceba que a estrutura de fatos da história é a mesma, mas sendo contada (telling) de forma diferente.

O story: Escolhendo os ingredientes da história

Para criarmos uma história que encante, influencie e conquiste, é essencial, portanto, conhecer o que é relevante para o público que queremos engajar. Somente assim conseguiremos selecionar os fatos que atrairão a atenção seletiva desse público e poderemos desenvolver uma narrativa que o conduza a um processo de transformação (conversão) que faça sentido dentro da sua visão de mundo, o seu universo.

Não é à toa que as melhores histórias são aquelas que conseguem articular dores e prazeres humanos da forma mais simples possível – porque é assim que o nosso cérebro funciona: maximizando prazer, minimizando dores e otimizando a nossa energia nesse processo, para que consigamos sobreviver como indivíduos e como espécie. Assim, o primeiro passo para se criar um storytelling de sucesso é conhecer as dores e prazeres do seu público. Uma ótima maneira de fazer isso é por meio da ferramenta de Mapa de Empatia (bastante usada em Design). Com ela, conseguimos entender quais são as dores do nosso público, o que causa interesse, o que lhe tira o sono, quais as aspirações que o movem, apontando os seus motivadores para prestar a atenção e agir. Essas são as peças para construir histórias que engajem esse público.

 

 

 

 

 

O telling: Fazendo a história aparecer

A partir do momento em que conhecemos o nosso público e aquilo que o move, obtemos os ingredientes para criar uma história, mas isso apenas não basta. Fazer uma boa história é como fazer um bolo: precisamos de uma metodologia que determine como combinar corretamente os ingredientes da forma adequada. Essas metodologias estruturam a forma de contar a história.

Uma das mais eficientes, e consequentemente mais utilizada, estruturas de criação de histórias é a “Estrutura dos Três Atos” – ela funciona, sempre funcionou e provavelmente sempre funcionará porque imita a forma como o cérebro humano atua para resolver problemas. Ela divide a história em três partes (atos), normalmente chamados de início (apresentação), meio (confronto) e fim (resolução). Perceba que um elemento fundamental em uma história é o confronto: sem algum tipo de desequilíbrio que precise ser solucionado, o nosso cérebro não se interessa.

Há 2,5 mil anos, Aristóteles descreveu essa fórmula na forma de pena, medo, catarse: você precisa fazer o público ter pena de uma personagem (normalmente isso é feito fazendo a personagem passar por reveses não merecidos) para criar uma conexão emocional entre o público e essa personagem. Uma vez que essa conexão emocional seja estabelecida, a história passa a ter algum controle sobre a audiência. Conforme você colocar a personagem em situações cada vez piores, o público sente medo, devido à conexão emocional estabelecida, e cria identificação. Quando você livra a personagem daquela ameaça, ou daquela situação ruim, seja ela qual for, a audiência experimenta a catarse. Esses três atos são conhecidos também como sofrimento, luta e superação. 

 

Ato final 

Assim, criar histórias é uma arte que envolve conhecer muito bem o seu público para conseguir obter os ingredientes certos, que permitam o desenvolvimento da narrativa que terá o poder inigualável de atrair e engajar esse público. Para tanto, a estrutura dos três atos é uma arma infalível.

Para conhecer mais sobre storytelling e como aplicar nas mais diversas áreas, recomendo que faça um curso específico para isso, como o que ofereço [on-line, em martha.com.br/st], ou leia alguns dos inúmeros livros que ensinam as mais diversas técnicas para dominar essa arte.

Esse é o primeiro passo para abraçar o storytelling como estratégia de comunicação, que, quando usada corretamente, pode ensinar, iluminar e entreter. Cada história tem um propósito, mesmo que seja transmitir uma simples mensagem. Sem histórias, a humanidade nunca aprenderia com os seus erros, nunca sonharia para realizar grandes feitos ou inovar, e nunca conseguiria ver além do agora – não poderíamos conhecer o passado e nem imaginar o futuro.

Martha Gabriel é escritora, consultora e palestrante nas áreas de marketing digital, inovação e educação. Autora de sete livros, um deles o best-seller Marketing na Era Digital. Palestrante de 5 TEDx, keynote speaker internacional com mais de 75 palestras no exterior e premiada três vezes como melhor palestrante em congressos nos Estados Unidos.

PARA SABER MAIS

  • BADDLEY, A. D. Essentials of human memory. New York: Psychology Press, 1999.
  • BBC Brasil. Quando e por que os humanos começaram a falar? Disponível em: mod.lk/wLEAj. Acesso em: 7 jul. 2020.
  • BECK, J. C.; DAVENPORT, T. H. A economia da atenção. São Paulo: Elsevier, 2001.
  • BOYD, B. On the origin of stories: Evolution, cognition, and fiction. Cambridge, MA: Belknap Press. & Pace-Schott, E. F. (2013). Dreaming as a storytelling instinct. Frontiers in Psychology, 4, 159, 2009.
  • BRUNER, J. Actual Minds, Possible Worlds. Cambridge: Harvard University Press, 1987.
  • CHRISTIAN, D. TED TALKS: A Grande História. Disponível em: mod.lk/vhvyq. Acesso em: 7 jul. 2020.
  • POPOVA, M. The evolution of storytelling. Disponível em: mod.lk/8ecgf. Acesso em: 7 jul. 2020.
  • PRIVACIDADE hackeada. Direção de Jehane Noujaim e Karim Amer. Estados Unidos: Netflix, 2019.
  • UNIVERSITY of Southern California. Something universal occurs in the brain when it processes stories, regardless of language. Disponível em: mod.lk/szrfz. Acesso em: 7 jul. 2020.
  • ZAK, P. J. Future of StoryTelling. Disponível em: mod.lk/mzbxr. Acesso em: 7 jul. 2020.
  • ZAK, P. J. Why Your Brain Loves Good Storytelling. Disponível em: mod.lk/1mXmQ. Acesso em: 7 jul. 2020. 
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Os 6 Cs do uso de tecnologias em sala de aula e como eles podem te ajudar na prática

Os 6 Cs do uso de tecnologias em sala de aula e como eles podem te ajudar na prática

Emilly Fidelix

Emilly Fidelix

É criadora do @seligaprof, onde impacta milhares de professores de todo o Brasil, palestrante e formadora de professores. É doutoranda em História Cultural (UFSC), especialista em Tecnologias, Comunicação e Técnicas de Ensino (UTFPR), colunista no blog Redes Moderna e professora de pós-graduação no Instituto Singularidades. Atua nas áreas de metodologias ativas, storytelling aplicado à educação e BNCC.

O uso de tecnologias digitais tem crescido de forma expressiva nos últimos anos quando o assunto é educação. Além disso, a Base Nacional Comum Curricular traz entre suas competências gerais, a Cultura Digital, demonstrando a total importância dessa abordagem pelas escolas. Por isso, hoje vamos falar dos 6 Cs da utilização da tecnologia, conceito trazido pelo autor Josh Stumpenhorst:

 

Colaborar: Como o uso dessa ferramenta pode tornar a colaboração uma das bases dessa atividade/desafio? A colaboração envolve o trabalho em grupo, mas também, a comunicação com pessoas de outras instituições, o trabalho em conjunto com outros professores ou profissionais de outras áreas. Que tal trazer um professor de outro país para falar sobre a sua cultura? Sobre sua experiência educacional, sobre suas vivências em determinada área? Imagine a experiência de compartilhamento de ideias e de empatia global gerada a partir de uma simples videochamada com alguém que mora do outro lado do mundo ou do outro lado do nosso país? Hoje, com as redes sociais essas ações são muito simples de serem articuladas. Nesse sentido, um projeto muito interessante e ligado à colaboração em rede é o Global Read Aloud (ler em voz alta), em que jovens de todo o mundo votam sobre um livro a ser lido coletivamente, para então colaborar e compartilhar sua experiência de leitura e uma série de outras atividades. O objetivo do projeto é aproximar crianças e jovens de todo o mundo por meio do interesse em literatura.

Dica de ferramentas colaborativas: Google docs, Trello e Jamboard.

 

Comunicar: Como eu posso ajudar os meus estudantes a desenvolverem habilidades em comunicação? Aqui é preciso entendermos a comunicação como forma de expressão que vai muito além da comunicação oral, como a oratória, por exemplo. Pense em formatos como podcasts, vídeo-minuto, foto-denúncia.

Dicas de ferramentas para a comunicaçãowww.vocaroo.com, app Inshot e a câmera do celular.

 

Consumir: Como eu posso desenvolver momentos envoltos no consumo de informações de qualidade pelos meus estudantes? Como ajudá-los a fazerem uma pesquisa confiável? Ou a estarem bem informados? A internet contém um vasto universo de informações, nem sempre confiáveis e nem sempre qualificadas, tratar de temas como fake news, por exemplo, é estar de acordo, também, com as propostas da BNCC.

Dicas de ferramentas para desenvolver o consumo de informações de qualidade na internetwww.projetocomprova.com.br (identificação de fake news), https://scholar.google.com/ (google acadêmico, com artigos científicos), https://bndigital.bn.gov.br/ (acervo histórico digitalizado).

 

Conveniência: Como posso usar ferramentas digitais para poupar tempo? Planejar aulas em ferramentas digitais em arquivos que ficam salvos na nuvem é uma boa forma de aproveitar esses para que não precisemos fazer um retrabalho posteriormente, além de formar um repositório de conteúdos facilmente editáveis. Além disso, avaliações diagnósticas, por exemplo, que levariam muito tempo e custariam muitas folhas e tinta de impressora, podem ser facilmente criadas em ferramentas específicas.

Dicas de ferramentas para conveniência: Google Docs (para planejar e ter todos os seus planejamentos salvos na nuvem, facilmente editáveis) Google Formulários (para avaliações diagnósticas rápidas, bem como quizzes).

 

Criar: A grande potência do uso de ferramentas digitais com os estudantes é a criação. Que tal solicitar que criem blogs, infográficos, histórias em quadrinhos, ebooks, cartazes multimídia?

Ferramentas para criação: www.sites.google.comhttps://infogram.com/pt/https://edu.pixton.com/solo/

https://crello.com/pt/create/ebooks/http://edu.glogster.com/.

 

Questão para refletir: Como posso aproveitar o potencial de tecnologias digitais para o processo de aprendizagem e não somente como suporte para o ensino?

 

Um abraço e até a próxima,

Emilly

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5 temáticas para você trabalhar a competência geral 5: cultura digital

5 temáticas para você trabalhar a competência geral 5: cultura digital

Emilly Fidelix

Emilly Fidelix

É criadora do @seligaprof, onde impacta milhares de professores de todo o Brasil, palestrante e formadora de professores. É doutoranda em História Cultural (UFSC), especialista em Tecnologias, Comunicação e Técnicas de Ensino (UTFPR), colunista no blog Redes Moderna e professora de pós-graduação no Instituto Singularidades. Atua nas áreas de metodologias ativas, storytelling aplicado à educação e BNCC.

Olá, educadores! Hoje o nosso papo envolverá uma temática que está em alta nos últimos anos: tecnologias digitais. Esse tema, que até alguns anos atrás era pouco discutido no cenário educacional brasileiro, salvo algumas exceções, cresceu timidamente e despontou com a Base Nacional Comum Curricular, quando nos deparamos com uma das competências gerais: Cultura digital.

 

Nesse sentido, a BNCC está trazendo para o debate, a importância de aderirmos a essas ferramentas como recursos pedagógicos, mas também como fonte de análise, de reflexão, de pensamento crítico, não apenas para consumir, mas para criar. Veja o que o documento nos diz:

 

“a cultura digital tem promovido mudanças sociais significativas nas sociedades contemporâneas. Em decorrência do avanço e da multiplicação das tecnologias de informação e comunicação e do crescente acesso a elas pela maior disponibilidade de computadores, telefones celulares, tablets e afins, os estudantes estão dinamicamente inseridos nessa cultura, não somente como consumidores. Os jovens têm se engajado cada vez mais como protagonistas da cultura digital, envolvendo-se diretamente em novas formas de interação multimidiática e multimodal e de atuação social em rede, que se realizam de modo cada vez mais ágil” (BNCC, p. 61).

 

Sobre essa competência, a BNCC nos diz que é preciso:

Compreender, utilizar e criar tecnologias digitais de informação e comunicação de forma crítica, significativa, reflexiva e ética nas diversas práticas sociais (incluindo as escolares) para se comunicar, acessar e disseminar informações, produzir conhecimentos, resolver problemas e exercer protagonismo e autoria na vida pessoal e coletiva (p. 9).

 
 

Por isso, uma formação que envolva a temática de forma crítica, significativa, reflexiva e ética se faz necessária: não basta o uso pelo uso, mas o uso ético, responsável e seguro. A partir disso, sugiro que você faça num caderno ou recurso digital, um exercício de brainstorming para construir ideias e possibilidades sobre como você pode trabalhar a competência geral 5 da BNCC com os seus estudantes. Para isso, dividi a competência em 5 temáticas-pilares, que você pode mudar de acordo com o seu componente curricular e/ou planejamento. Vamos lá?

 
 

Pense sempre em formas de adaptar ao seu contexto, partindo de temáticas que facilmente se encaixam nas discussões, como fake news nas ciências, por exemplo, envolvendo vacinas. Outra forma sobre como refletir sobre o impacto das redes sociais em língua portuguesa, por exemplo, seria trabalhar a partir de crônicas, as sensações que os estudantes já tiveram a partir da comparação, a dita vida perfeita, o medo do julgamento do outro ou mesmo discussões envolvendo ansiedade e depressão com os jovens.

Também é importante pensarmos no uso de recursos digitais para que os estudantes criem a partir da colaboração, do senso crítico e explorem diferentes plataformas que lhes permitam diversas formas de se expressar: a partir do desenho, do texto, da história em quadrinhos, dos memes, de podcasts.

Os caminhos são muitos. É interessante que cada educador estude a BNCC e, especialmente o que o documento propõe a cada componente curricular, para que então, analise as possibilidades e as inclua, pouco a pouco, à sua prática pedagógica.

 

Boa jornada, educadores! Um grande abraço digital!

Prof. Emilly Fidelix | @seligaprof

 

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Todos transformadores

Todos transformadores

Texto Flávio Bassi

Texto Flávio Bassi

O empreendedorismo social colabora para a formação de jovens protagonistas na renovação e atualização do mundo.

O mundo hoje está em constante e acelerada transformação. Por um lado, está cada dia mais evidente a nossa profunda interdependência. Por outro, as revoluções tecnológicas e das comunicações afetam, como nunca, todas as dimensões de nossas vidas. São os jovens, em especial, que enfrentam o maior desafio face a essas mudanças, pois devem projetar suas vidas justamente nesse momento de transição.

Como podem encontrar soluções para um mundo que parece avançar mais rápido do que a nossa capacidade de responder ao que ele nos demanda? O jeito é fazer com que a quantidade de soluções exceda a quantidade de problemas e isso só é possível se todos nós formos sujeitos de transformação social positiva. Isso significa que precisamos desafiar o paradigma atual que ainda prepara as novas gerações para um mundo hierárquico, vertical, cindido em áreas e departamentos do saber e do fazer e orientado para a satisfação dos desejos e das necessidades individuais imediatos por meio da eficiência na repetição.

É face a essa virada civilizatória que o empreendedorismo social – um campo em construção nos últimos 40 anos – reafirma-se mais forte do que nunca ao atrair a atenção de diversos outros campos, especialmente a educação escolar.

Empreendedorismo social: modo de ser

A Ashoka, que cunhou o termo e ajudou a construir o campo, define o empreendedorismo social considerando os atributos e as qualidades que caracterizam o(a) empreendedor(a) social e sua ideia:

  • Seu perfil ou qualidade empreendedora: uma forte motivação para mover recursos de uma área de baixo para uma área de grande impacto social.
  • Possuir uma ou mais ideias inovadoras: novas abordagens para problemas sociais com o potencial de mudar um ou mais sistemas.
  • Ser criativo: ter a capacidade de solucionar problemas e sempre buscar saídas para obstáculos que encontra pelo caminho.
  • O impacto social de suas ideias: as mudanças sistêmicas resultantes de suas ações.
  • A fibra ética: para que esse impacto seja sempre orientado para o bem comum e alcançado por meios éticos.

Por esse conjunto de critérios já se percebe que o empreendedorismo social não é simplesmente algo que se faz, mas uma maneira de ser e estar no mundo. Por isso, se queremos que os aprendizados do empreendedorismo social contribuam com a educação escolar, precisamos ir muito além das abordagens mais utilitárias que o reduzem a um mero conjunto de conteúdos disciplinares. Ao contrário, é preciso voltar às suas origens: o que contribui para que as pessoas cultivem e desenvolvam as competências e habilidades que associamos ao empreendedor social? 

Para responder a essa pergunta, a Ashoka realizou um diagnóstico de sua rede global de mais de 4.000 empreendedores sociais em 91 países. Ao olhar suas biografias, foram analisados os fatores que contribuíram para que eles, desde cedo, se dedicassem para o bem comum de maneira empreendedora. Dentre estes, cerca de 800 atuam diretamente com crianças e jovens e têm como objetivo principal contribuir para seu protagonismo social. Por isso também foram analisadas as suas estratégias e metodologias para compreender os principais fatores que contribuem para o sucesso de suas empreitadas.

01 – Desse estudo se pode observar quatro modos ou condições de existência dos empreendedores sociais:

  • Compreender a si mesmo: cultivar a consciência de suas paixões, motivações, habilidades e limitações, combinadas com o compromisso de trabalhar para melhorar a si mesmo.
  • Criar senso de propósito e autopermissão: desenvolver uma compreensão da mudança que se deseja ver no mundo e se permitir correr riscos para persegui-la.

02 – Modos de conhecer

  • Ler o mundo e compreender o campo social: saber como a transformação social acontece, conhecendo os principais caminhos para a mudança estrutural e sistêmica.
  • Conhecer a comunidade através do engajamento: criar relações horizontais com a comunidade e público para conhecer seus desafios e suas fortalezas.

03 – Modos de pensar

  • Pensar de maneira sistêmica: cultivar a capacidade de analisar um problema de maneira sistêmica e aprender a criar hipóteses sobre o que seria necessário para transformá-lo.
  • Definir problemas, projetar soluções: ser capaz de definir um problema e projetar uma solução que leve em consideração consequências intencionais e não intencionais.
  • Pensar criativamente: desafiar o pensamento para além do imediatismo do desafio em questão para visualizar o mundo como ele deveria ser.
  • Pensar com foco nos resultados: aprender a alinhar atividades e táticas com resultados mensuráveis a curto e longo prazo e traçar caminhos para o sucesso.

04 – Modos de conviver

  • Comunicar de forma clara e convincente: ser capaz de criar e comunicar novas narrativas ou paradigmas que anunciem as potências das novas soluções e mobilizem as pessoas.
  • Construir alianças e equipes: ser capaz de estabelecer conexões com colegas e equipes para formar arranjos transformadores capazes de aumentar o impacto social das soluções.

“Uma escola que garante diversos tipos de aprendizados contribui para os projetos de vida ao conectar aquilo que o mundo espera de nós com as nossas próprias potências e capacidades.

Educação transformadora

É o conjunto desses quatro modos que leva, finalmente, às formas de fazer que caracterizam o empreendedorismo social. Estes dependem de pelo menos quatro competências de uma educação transformadora:

  • Empatia: é a capacidade de conhecer seus próprios sentimentos e ideias, conhecer os sentimentos e ideias dos outros e, mais que isso, conectar-se com eles, saindo do eu para, a partir de outros olhares, adentrar uma visão mais abrangente e profunda do mundo. Só através dessa capacidade de estar verdadeiramente aberto àquilo que o outro apresenta, o indivíduo estará apto a refinar sua capacidade analítica, compreendendo diferentes contextos e, com isso, contribuir na busca por transformar o mundo.
  • Criatividade: apostar na força da criatividade é reconhecer os estudantes como sujeitos ativos de suas próprias aprendizagens, uma vez que só se aprende na interação com o mundo natural, social e cultural, na produção de conhecimento e cultura e não na assimilação e reprodução de conteúdos previamente elaborados. Além de valorizar a autoria dos estudantes, de estimular diferentes linguagens e formas de expressão, do incentivo para criar soluções novas para problemas, cultivar a criatividade é antes de tudo abrir espaço para o exercício cotidiano da liberdade.
  • Trabalho em equipe com liderança compartilhada: é a capacidade de cooperar e trabalhar em parceria, na diversidade, empreendendo ações conjuntas visando a resultados comuns. Ela se constrói principalmente através da vivência dos estudantes com seus pares, em grupos auto-organizados, em um ambiente democrático e ético, onde todos podem trazer contribuições e aprender juntos em nome do compromisso com o bem comum. As relações entre as pessoas mudaram e os modelos hierárquicos de liderança, marcados tradicionalmente pelo autoritarismo e pela rigidez, não têm mais espaço. A liderança hoje, mais do que nunca, deve ser compartilhada.
  • Protagonismo social: todos somos, em nossa essência, iniciadores. A cada nascimento, ressurge a esperança da renovação e transformação do mundo. Trata-se, portanto, de uma qualidade inerente ao ser humano, mas que deve ser cuidada para que floresça com vigor. Protagonismo social é a capacidade de tomar iniciativas para o bem comum, buscando ativamente engajamento coletivo. O protagonista social é aquele que reconhece sua potência e assume postura ativa nos processos de transformação da realidade, orientando-se para a resolução prática dos problemas.

Uma educação transformadora, portanto, é aquela que entende, cultiva e potencializa essas quatro competências em toda a comunidade escolar. Uma escola que garante as condições para esses tipos de aprendizados contribui para os projetos de vida das juventudes (como preconiza a competência geral 6 da bncc), mas em conexão com aquilo que o mundo espera de nós e a partir das suas próprias potências e capacidade de transformação.

Um mundo de pessoas que transformam

sse processo, tanto para as novas gerações quanto para a comunidade escolar como um todo, só pode ser uma jornada, uma caminhada. Ela parte, como vimos nos modos de existência empreendedora, da construção do “eu” (identidade), passando pelo encontro com o “outro” (alteridade), até chegar ao “nós” (comunidade). Por isso, quando me perguntam como as escolas podem contribuir para um mundo de pessoas que transformam, convido a olhar o aprendizado que vem das comunidades escolares que já fazem parte desse movimento: invariavelmente elas começam com uma jornada de descoberta de todos os membros da comunidade escolar, e especialmente das crianças e jovens, como sujeitos de transformação.

Mas não basta alguém se reconhecer como transformador: é preciso querer transformar o mundo. É o encantamento com o mundo que desperta a vontade de tomá-lo para si, cuidar dele e de tudo que nele existe. As competências transformadoras, combinadas com uma postura afetiva, ética e que coloca a autoria, a criação e a agência dos estudantes em primeiro lugar, ajudam a criar esse senso de responsabilidade pelo mundo e a fazer com que assumam um papel protagonista nas mudanças, renovações e cuidados demandados pelas diferentes realidades de hoje e de amanhã.

Flavio Bassi 

é antropólogo, educador popular e biólogo. Foi fundador e diretor executivo da Ocareté, atuando no campo socioambiental com povos indígenas e comunidades tradicionais, além de diretor regional da Ashoka para o sul da África. Atualmente é vice-presidente da Ashoka na América Latina, onde também dirige a sua estratégia de Infância e Educação.

Para saber mais

  • Ashoka: ashoka.org
  • Programa Escolas Transformadoras: escolastransformadoras.org.br
  • Série “Corações e Mentes: Escolas que Transformam”: www.videocamp.com/pt/playlists/coracoes-e-mentes-escolas-que-transformam  
  • Movimento de Inovação na Educação: movinovacaonaeducacao.org.br

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Educar para viver em sociedade

Educar para viver em sociedade

Texto Paulo de Camargo

Educação em valores deve ser coletiva, prioritária e intencional.

Professor, gestor escolar e doutor em Psicologia pela Universidade de Valladolid (Espanha), José María Avilés Martinez é uma referência global em estratégias de combate ao bullying, ao cyberbullying e aos diferentes fenômenos que afetam a convivência escolar. Tendo como base seu trabalho em Valladollid, Martinez tem colaborado com grupos de pesquisa no Brasil e acompanhado pessoalmente a implantação de suas ideias, traduzidas na metodologia Prires. Em sua última visita ao país, a Educatrix foi conhecer mais sobre a metodologia e o trabalho do educador.

Educatrix: A agenda de temas urgentes em educação é ampla em todo o mundo. Entre tantas prioridades, qual é o lugar da educação em valores e do tema da convivência escolar?

José María Avilés Martinez: O trabalho das escolas no campo dos valores é crucial e deve ser central, porque se trata de um tema transversal que impregna a atuação de todos os agentes educativos. Em uma sociedade democrática, que demanda da escola a formação de cidadãos para o futuro, é imprescindível que a escola exerça esse mandato de forma consciente. Por isso, é importante explicitar a educação em valores como uma tarefa planejada, intencional e compartilhada por todos de forma colaborativa, sejam famílias, professores ou o próprio alunado.

Educatrix: A convivência escolar permite aprender sobre valores?

J.M.A.M. Sim! A convivência escolar é um ambiente privilegiado por colocar em jogo esses valores. Ao pô-los em prática, permite-se aprendê-los a partir de situações espontâneas e habituais, como conflitos, ou por meio de circunstâncias planejadas, que trabalham intencionalmente valores como o respeito, a solidariedade, a tolerância e a igualdade. Uma escola pode, por meio de seu Plano de Convivência e das atuações a partir dele, planejar o trabalho em valores com reflexões e debates coletivos de suas experiências, propondo práticas sistematizadas com o uso das melhores estratégias.

Educatrix: Qual é a melhor definição de bullying e como diferenciá-lo do cyberbullying?

J.M.A.M. Trata-se do mesmo fenômeno, embora com diferenças decisivas. Em ambos existem três componentes definidores: o desequilíbrio de poder que torna o agressor mais forte que sua vítima (física, social, digital ou psicologicamente); a intencionalidade expressa em situações planejadas para causar dano; e a recorrência ou a repetição que leva os atores a persistirem em um cenário em que ambos ocupam posições de domínio ou submissão diante dos olhos de testemunhas. Assim, a definição de assédio pode ser maus-tratos repetidos entre jovens em idade escolar, mantidos ao longo do tempo, quase sempre longe dos olhos dos adultos, com a intenção de humilhar e sujeitar abusivamente uma vítima indefesa por um agressor ou grupo com resultados de vitimização psicológica e rejeição de grupo. Já o cyberbullying acontece quando um sujeito recebe repetidas agressões abusivas por meio de mídias móveis ou ambientes virtuais, com o objetivo de prejudicá-lo e a seu status social, reduzir as chaves socioemocionais e tirar proveito do anonimato. A vítima está em uma posição ainda pior do que no bullying com relação àqueles que a maltratam. Quem sofre vitimização tem menos segurança, menos controle e mais imprevisibilidade. Quem pratica o abuso deixa de reconhecer os sentimentos da vítima por agir do outro lado de uma tela, não recebe feedback do sofrimento e isso torna deficitário o 

O pilar decisivo é a intenção educacional das ações implementadas, um olhar que permite construir processos a partir dos alunos, do que são, do que têm, do que sentem e com um impacto explícito no que os motiva e os preocupa.

José María Avilés Martinez

Seu pensamento sobre as consequências de seus atos. Contextualmente, o cyberbullying aumenta o número de testemunhas e prolonga a permanência do dano enquanto as imagens ou os vídeos ofensivos ainda forem propagados na rede.

Educatrix: Há uma tendência a piorar o problema do cyberbullying?

J.M.A.M. É importante abordar o fenômeno educacionalmente, porque se nada for feito os problemas podem aumentar e os sujeitos envolvidos podem se sentir muito mal e procurar soluções enganosas de fuga. Até agora, o que muitas escolas fizeram foi proibir dispositivos em seu ambiente; outras permitem o seu uso, mas mantêm uma distância educativa que não fornece pistas ou critérios para o relacionamento que os jovens estabelecem. A atuação da instituição deve ser proativa e preventiva, fornecendo critérios razoáveis ​​para os alunos tomarem decisões corretas na gestão de seus relacionamentos na internet. Com as famílias, é preciso ter diretrizes de suporte e supervisão do relacionamento com os dispositivos, regulando o tempo, o conteúdo e os locais de uso. Com o corpo docente, no currículo escolar, apoiar o uso positivo das redes sociais para a aprendizagem dos alunos e para o trabalho colaborativo. Esse conjunto de ações vale tanto para o enfrentamento dos riscos da rede, como para uma utilização saudável desses dispositivos digitais pelos alunos, para que se tornem autônomos, independentes, respeitosos e felizes em usá-los.

Educatrix: O bullying é um problema estritamente escolar?

J.M.A.M. O bullying não é um fenômeno estritamente escolar. Acontece na escola, sim, mas como um reflexo da própria sociedade. Na escola, chamamos isso de bullying entre iguais; na família, de violência de gênero, abuso de idosos ou abuso de crianças; no local de trabalho, chamamos de assédio moral. Poderíamos continuar em outros setores sociais ou políticos, colocando rótulos diferentes em processos semelhantes. Trata-se de um problema social de se exercer o poder de maneira abusiva, de violência replicada em diferentes espaços de relacionamento. Portanto, a reflexão sobre intimidação e maus-tratos entre iguais nos leva a um pensamento mais geral, sobre como concebemos nossos relacionamentos interpessoais, sobre como exercemos poder e que espaço damos aos direitos de outras pessoas em nossa interação. Em resumo, devemos pensar em como colocamos em jogo os valores do relacionamento e da convivência democrática em nossos ambientes próximos. Se a escola deve continuar a ser um motor de transformação social, é a partir dela que vamos trabalhar para a construção de valores de solidariedade, respeito, justiça e igualdade, modelos de relacionamentos interpessoais saudáveis, em que a cultura do cuidado e da ajuda impere frente à imposição e ao abuso.

Educatrix: Como pesquisador, diretor e educador, você construiu uma visão multidisciplinar sobre o cyberbullying que resultou em uma metodologia de referência. O que diz essa metodologia?

J.M.A.M. Apresentei recentemente o Prires, um programa educacional para orientar a gestão de redes sociais e em situações de cyberconvivência que está sendo aplicado nas escolas espanholas com a colaboração de famílias, professores e até estudantes que atuam como tutores de seus companheiros mais jovens. Fundamentalmente, essa abordagem multidisciplinar me ajudou a ter uma perspectiva de trabalho muito coletiva, colaborativa e participativa com os colégios que assessoro e com os diferentes agentes educacionais. Assim, trabalhamos com os professores em estruturas como as equipes de convivência e os tutores, e entre os alunos com estruturas criadas por nós, como equipes de ajuda ou equipes de mediação. A orientação sobre bullying e cyberbullying baseia-se no trabalho preventivo de valores e convivência escolar. É um caminho de ida e de volta. Valores e boa convivência são trabalhados para evitar o assédio moral e, ao mesmo tempo, temos estratégias específicas para lidar com o abuso de colegas, porque sabemos que apenas trabalhar na convivência escolar não é suficiente.

Educatrix: Quais são os pilares do seu trabalho?

J.M.A.M. Os pilares fundamentais são: o trabalho proativo e preventivo contra medidas reativas; a construção de estratégias de equipe que promovam ações coletivas previamente debatidas e acordadas contra soluções individualistas; a implementação de processos de baixo para cima, ou seja, que surgem da necessidade das equipes que tomam decisões e que tornam suas respostas originais e não repetíveis, sempre projetadas para os problemas da própria escola. Por fim, o pilar decisivo é a intenção educacional das ações implementadas, um olhar que permite construir processos a partir dos alunos, do que são, do que têm, do que sentem e com um impacto explícito no que os motiva e os preocupa. O envolvimento dos estudantes na solução de seus problemas é uma condição indispensável. Sem dúvida, também é preciso uma visão recíproca: os professores e os adultos precisam acreditar no lado positivo dos alunos para ajudá-los a alcançar seus próprios objetivos.

Educatrix: Quais os primeiros passos para uma escola que, a partir de agora, quer resolver a questão do bullying?

J.M.A.M. Em geral, começar por estratégias conjuntas, porque o assédio e a intimidação são abordáveis quando os enfrentamos de maneira coordenada, levando em consideração a perspectiva e a cultura das famílias, a liderança e o conhecimento dos professores e equipes de gestão das escolas e o protagonismo dos estudantes como um grupo que não permite que comportamentos de assédio sejam instalados na sua própria cultura de convivência. Depois, aumentar a conscientização sobre a importância de trabalhar juntos para resolver o problema. É necessária sinergia entre professores, famílias e estudantes para que sejam competentes para dar uma resposta eficaz a essas situações e/ou atos de intimidação; construir protocolos e medidas preventivas para impedir que as ações de abuso se tornem fortes em contextos em que o silêncio e o consentimento prevalecem. Essas ações só são possíveis ao refletirmos como comunidade educacional na implementação de valores positivos que vão contra os valores de intimidação, como imposição, abuso, medo, coerção ou desrespeito. Trabalhar valores como tolerância, coragem, empatia, compaixão, assertividade e solidariedade dentro dos grupos faz com que a sala de aula adote outras atitudes e exemplos, que se tornam predominantes no discurso institucional da escola e no discurso informal dos alunos, ocupando o espaço, o tempo e os idiomas do grupo.

Educatrix: Você visitou escolas brasileiras e trabalhou com pesquisadores daqui. O desafio brasileiro é semelhante ao enfrentado em outros países?

J.M.A.M. Cada país tem seus desafios, suas vantagens e desvantagens, dependendo do seu desenvolvimento educacional e de sua cultura escolar. Nos últimos anos, transferimos para algumas escolas e grupos de pesquisa metodologias de convivência que estão obtendo resultados muito bons. Esses dados revelam diferenças entre os estudantes de nossos países em relação à adesão a valores como justiça, respeito, solidariedade e convivência democrática, em geral, justificados pelos diferentes trabalhos dos sistemas educativos sobre valores e pelas diferenças na sistematização das tarefas do corpo docente para promover a convivência escolar. O Brasil, como outros países, enfrenta um desafio de trabalhar este tema, a fim de generalizar estratégias educacionais eficazes e conscientizar os professores e as equipes de gestão sobre seu papel decisivo na implementação dos Planos de Convivência e no trabalho em valores.

Educatrix: Como adotar a abordagem que você propõe?

J.M.A.M. As escolas devem se olhar e se encontrar. Cada escola tem valor em si mesma para a tomada de boas decisões. É verdade que muitas escolas precisam de força, orientação e treinamento de pessoas que já fizeram essa jornada com outros grupos e que conhecem as etapas para alcançar os objetivos propostos. Estamos dispostos a ajudá-las nesse trânsito. O importante, mais do que o ponto de destino, são os processos que a própria escola constrói entre seus pares nessa viagem. Mas insisto, é necessário contar com as pessoas que formam a escola; sem elas, a viagem em si não será possível, nem se construirá qualquer coisa. Assessoramos e formamos equipes de gestão e de professores que desejam implementar planos de convivência ou projetos antibullying. Fornecemos materiais de formação e professores profissionalmente competentes em convivência em diferentes perspectivas e técnicas de trabalho que possibilitam a internalização dos valores democráticos nas escolas. No entanto, isso só será possível se os membros da comunidade escolar se envolverem, quiserem mudar o que fazem e procurar saídas ponderadas para seus problemas de coexistência e para a construção de valores futuros.

Educatrix: Qual é a relação entre educação em valores, qualidade de convivência e desempenho acadêmico?

J.M.A.M. Existem vários estudos que apoiam essa ideia e várias instâncias educativas já reconhecem na certificação acadêmica das qualificações dos alunos sua participação em ações relacionadas à promoção de valores e à construção de uma convivência positiva em seu entorno. Isso também se deve à demanda das empresas que buscam em seus colaboradores novas habilidades além do desempenho acadêmico de egressos, como a capacidade de trabalhar em grupo, a competência para resolver problemas de perspectivas inovadoras ou criativas ou habilidades para se colocar no lugar do outro. Finalmente, estudos recentes como o da Fundação BBVA sobre boas práticas educacionais na Espanha ou o estudo realizado por mim na Universidade de Valladolid, em escolas de Castilla e León, fornecem dados a esse respeito. As pesquisas identificam o trabalho em valores como um dos indicadores relevantes para o desempenho acadêmico, a eficácia e o sucesso escolar entre os alunos das escolas, que estão cada vez mais preocupadas em incluir em seu planejamento estratégico a implementação de valores para a construção da convivência democrática.

Para saber mais

  • MARTINEZ, J. Bullying: guia para educadores. Campinas: Mercado de Letras, 2013.
  • MARTINEZ, J. Educar en las Redes Sociales. Programa preventivo PRIRES. Bilbao: Desclée de Brouwer, 2018.
  • MARTINEZ, J.; PETTA, R. Los Sistemas de Apoyo entre Iguales (SAI) para el fomento de la convivencia en positivo, la mejora del clima de aula y la prevención de situaciones de bullying: La experiencia de Brasil y de España. European Journal of Child Development, Education and Psychopathology, v. 6, n. 1, p. 5-17, 2018. Disponível em: mod.lk/aviles. Acesso em: 9 fev. 2020.

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Até onde vai o impacto da inovação na educação

Até onde vai o impacto da inovação na educação

Texto Marina Lopes e Vinicius de Oliveira, do Portal Porvir

Texto Marina Lopes e Vinicius de Oliveira, do Portal Porvir

De novas tecnologias e práticas na melhoria do aprendizado em diferentes países.

Quando se discute a necessidade de inovar em sala de aula para desenvolver com os estudantes de hoje as habilidades que eles vão precisar no futuro, uma das grandes dificuldades que se encontra é saber onde, como e qual a efetividade das inovações educacionais. A inovação na educação pode ser vista como indutora de mudanças nos sistemas educacionais pelo mundo? Qual o papel da tecnologia nesse processo? Para responder essas e outras questões, a OCDE (Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico) divulgou o relatório Measuring Innovation in Education 2019 (“Medindo a Inovação na Educação”, em livre tradução). 

De acordo com a publicação, que examinou 139 práticas de ensino fundamental e médio em bancos de dados como o PISA (Programa Internacional de Avaliação de Alunos), TIMMS (Tendências Internacionais nos Estudos de Matemática e Ciência) e o PIRLS (Estudo Internacional sobre o Progresso do Letramento em Leitura), mensurar a inovação e entender como ela funciona é essencial para melhorar a qualidade dos sistemas. Mesmo sem ter informações sobre o Brasil, com o estudo em mãos formuladores de políticas públicas podem saber o que está dando certo no exterior para ter um melhor respaldo na hora de realizar intervenções e direcionar os recursos.

Para avaliar inovações na educação, o documento parte de três perspectivas: comparação da educação com outros setores, identificação de mudanças significativas nos sistemas educacionais e construção de métricas para verificar a relação entre a inovação e as mudanças nos resultados educacionais.

Antes de descrever os resultados, primeiro é importante determinar o que é inovação em educação, segundo a OCDE. “Inovação está relacionada à adoção de novos serviços, tecnologias, processos e competências por instituições de ensino que levem à melhora de aprendizagem, equidade e eficiência”, diz o documento.

Apesar das inovações serem moderadas, alunos de sistemas dentro da média da OCDE têm experimentando diferentes práticas de ensino e aprendizagem em comparação aos seus pares nos últimos dez anos. Entre uma das maiores mudanças, está a aquisição de conhecimento independente, já que mais estudantes usam computadores e podem buscar informações para ampliar as discussões em sala de aula.

Ainda que as inovações não estejam necessariamente relacionadas ao uso de tecnologia, o documento destaca que as TICs (Tecnologias da informação e Comunicação) têm se apresentado como um importante motor de mudança. 

Entre os professores, o relatório também apresentou mudanças práticas. A proporção de docentes que participaram nas últimas décadas de atividades de aprendizagem entre pares aumentou, enquanto o treinamento formal permaneceu estável.

O documento aponta que a inovação não deve ser vista como um fim, mas como um meio de melhorar resultados educacionais. Em média, os países avaliados que mudaram suas práticas pedagógicas conseguiram melhorar os resultados acadêmicos dos estudantes e aumentaram o nível de satisfação e diversão na escola.

Na hora de indicar o que impulsiona a inovação, o documento aponta seis fatores de destaque: Recursos humanos: habilidades e abertura para inovação por parte de atores do setor educacional; Organização de aprendizagem: organização e capacidade das instituições para gerar conhecimento e aprimorar práticas.

“Inovação está relacionada à adoção de novos serviços, tecnologias, processos e competências por instituições de ensino que levem à melhora de aprendizagem, equidade e eficiência”

Tecnologia: aplicação de tecnologias na educação, particularmente de big data. Regulação e organização do sistema: a inovação só ganha força em ambientes onde boas ideias podem ser implementadas e não são encobertas por diretrizes com muita aversão ao risco para currículos ou processos de avaliação. Pesquisa educacional: o investimento em pesquisa e avaliação é considerado um elemento chave para o ecossistema de inovação. Desenvolvimento educacional: como acontece em outros setores, a educação também deve buscar desenvolver ferramentas inovadoras, organizações e processos para melhorar e mudar suas práticas.

A seguir, selecionamos algumas conclusões do estudo a partir da associação entre inovação e resultados acadêmicos, além do peso do investimento financeiro. Trata-se de uma maneira de ajudar atores em diferentes níveis do processo educativo a entender se as mudanças estão se traduzindo em melhoria nas escolas e salas de aula, bem como se estão em linha com o que foi planejado inicialmente.

Resultados acadêmicos

Fundamental 1: No ensino fundamental, o mesmo professor geralmente ensina todas as áreas do conhecimento, o que sugere que a inovação pode ter um efeito interdisciplinar e estar vinculada a todos os resultados da aprendizagem. Isso acontece positivamente tanto em letramento, quanto em matemática e ciências.

Fundamental 2 e Médio: Existe uma pequena associação positiva entre a inovação nas práticas de ensino e a mudança média nos resultados da aprendizagem em matemática e ciências. Como existe um professor para cada área, há menos chance de fertilização cruzada entre inovação em matemática e educação em ciências. A inovação no ensino de ciências tem sido positivamente associada com a melhoria dos resultados da aprendizagem na última década, enquanto que com a inovação na educação matemática isso não acontece. Isso nos lembra que a inovação não leva necessariamente a uma melhoria nos resultados desejados, exatamente como as reformas políticas às vezes falham. Por outro lado, também reforça o tempo necessário para que a inovação produza seus efeitos.

Investimentos financeiros

A inovação na educação pode ser feita com poucos ou muitos recursos. A conectividade e o uso pedagógico de TICs durante as aulas pode depender de um determinado nível de equipamento e infraestrutura, além da formação de equipes técnicas. Dada a estabilidade e até mesmo a pequena diminuição no acesso às TICs, não se deve esperar investimento em larga escala. Algumas inovações podem requerer formação de professores, mas também demandar a participação em cursos informais, que também envolvem algum custo (como o tempo da equipe).

Mudar as práticas de ensino e aprendizagem pode demandar novos conhecimentos, crenças ou atitudes, e isso pode exigir algum investimento para: produção de novos conhecimentos, comunicação, facilitação da aprendizagem entre pares, por meio de posts no blog da escola ou revisões sistemáticas de evidências existentes, ou ainda reuniões internas da escola e a participação em conferências promovidas por outras organizações.

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Quando entrar no chat significa aprender

Quando entrar no chat significa aprender

Texto Fernando Herranz, com colaboração de Gabriela Dias | Ilustração Leandro Lassmar

Texto Fernando Herranz, com colaboração de Gabriela Dias | Ilustração Leandro Lassmar

Chatbots e a inteligência artificial entraram de vez nas rodas de conversa da educação. Quais perguntas você deve se fazer para inseri-los no cotidiano da sua escola?

Nas últimas férias, nosso colega Fernando Herranz, da Espanha, presenciou a seguinte situação enquanto seu filho Rodrigo, de dois anos e meio, tomava mamadeira pela manhã. Por descuido do pai, Rodrigo pegou o celular e, sob seu olhar atento, manteve a seguinte conversa espontânea com o dispositivo:

Rodrigo: E aí, Siri, você está aí?

Siri: Estou aqui.

Rodrigo: Você quer mamadeira?

Siri: Tudo o que eu preciso está na nuvem.

Para aqueles que não conhecem a Siri, ela é o chatbot (ou “robô conversacional”) embutido no sistema operacional dos dispositivos da Apple. Outras grandes empresas de tecnologia, como Google, Microsoft e Amazon já possuem tecnologias semelhantes, todas baseadas em inteligência artificial (IA).

A história pode soar inofensiva, mas já é possível imaginar um futuro não muito distante em que assistentes virtuais, baseados em voz ou não, ocupam um papel de destaque na vida de crianças e jovens. Afinal, a relação com a máquina é natural para essas gerações e está no centro de seus processos de aprendizado e de seu dia a dia.

Pensando nisso, o que podemos fazer, como educadores, para nos prepararmos para o impacto que a IA deve causar no mundo educativo? A análise a seguir é uma reflexão coletiva da qual participaram várias pessoas da área de tecnologia e aprendizagem, com diferentes pontos de vista, no Brasil e na Espanha.

Primeira parada: um chat… o quê?

Antes de mais nada, é preciso se familiarizar com a tecnologia. É possível que você até já seja usuário, e esteja acostumado a acionar seu celular ou computador por voz. Esse é o primeiro passo para não ser pego de surpresa pela explosão que, nos próximos anos, essa nova modalidade de relação entre humanos e máquinas deve experimentar.

A segunda etapa é entender o que são robôs conversacionais, ou chatbots. Em resumo, eles são programas treinados para manter uma conversa e, às vezes, para aprender mais sobre nós. Essas conversas podem ser realizadas em texto, áudio, vídeo etc. Atualmente, elas são utilizadas, sobretudo, em contextos comerciais e de atendimento a clientes.

Para Marta Bonet, doutora em Filosofia e Ciências da Educação, essas inovações decorrem do fato de que hoje as máquinas podem, finalmente, utilizar a linguagem humana. “Agora podemos interagir com elas em nossa própria linguagem, o que elimina barreiras entre pessoas e máquinas e abre novas portas”.

Segunda parada: mais dúvidas do que certezas (ou não)

Segundo algumas análises, tais portas se abrirão em breve para o mundo da educação. Em 2017, o Fórum Econômico Mundial divulgou uma análise que aponta que a maior empresa da internet em 2030 será educativa, e que a base de seu negócio será a aplicação da inteligência artificial e o desenvolvimento de chatbots.

Hoje, porém, ainda temos muitas dúvidas: será que os chatbots solucionarão problemas de aprendizagem? Ampliarão a personalização? Farão da aprendizagem algo mais natural? Realmente falarão a língua dos alunos? Trabalharão habilidades?

Antonio Rodríguez de las Heras, professor da Universidade Carlos III de Madri, considera que essas ferramentas serão um elemento que vai intervir e servir de mediador entre o professor e o aluno. “É preciso abrir espaço para elas entre nós. A educação personalizada será o resultado de uma tríade formada pelo aluno, o professor e o bot – com os três aprendendo ao mesmo tempo”, comenta. 

Entretanto, elas terão de achar seu espaço e isso não será fácil, diz Alfredo Hernando, especialista em inovação educacional. Para ele, “os chatbots podem ocupar um espaço na correção rápida de respostas ou onde não há necessidade de compreensão semântica avançada”. A psicóloga Natalia Calvo, que pesquisa aprendizagem e neurodidática, concorda. “O desafio será encontrar um espaço adequado. Não acho que consigam dar resposta a todos os conteúdos de todas as disciplinas”.

Natalia tem sensações contraditórias ao analisar o fenômeno. “É normal uma criança ficar amiga de um robô? Que habilidades socioemocionais estará trabalhando? E quais estará realmente desenvolvendo?”. Mas suas incertezas contrastam com as surpresas positivas que, segundo ela mesma, esses recursos podem trazer para o aprendizado. “O chatbot pode contribuir para canalizar e potencializar a curiosidade de forma que as respostas provoquem novas perguntas, conduzindo a criança atráves de diferentes dimensões do conhecimento”, explica. 

A mesma linha é compartilhada por Marta Bonet. Ela ressalta os efeitos que a chamada “computação cognitiva” pode ter na hora de desenvolver processos de aprendizagem baseados mais na vontade de saber do aluno do que no armazenamento de informações. “Como a máquina decifra a linguagem natural, ela pode digerir conteúdos já existentes de forma rápida – e o aluno, em vez de passar as páginas ou deslizar a tela, pode falar com ela e obter a resposta que procura em sua própria linguagem. A relação com o conhecimento é muito mais natural e próxima”. 

Víctor Sánchez, fundador e CEO da startup Mashme, também considera imprescindível desenvolver essa relação natural entre o aluno e a máquina para que os chatbots tenham sucesso. “À medida que os processadores de reconhecimento da linguagem natural forem melhorando, o nível das perguntas que serão capazes de responder de forma completa e satisfatória aumentará exponencialmente”. 

Terceira parada: qual espaço os chatbots ocuparão no mundo educativo?

Se parece inevitável que robôs conversacionais sejam usados em contextos de aprendizagem, que espaço eles ocuparão? Será que substituirão alguém? Oferecerão formas alternativas de aprender? Os especialistas divergem quanto aos caminhos.

Alfredo Hernando ressalta que, apesar do potencial dos chatbots “nos cursos on-line ou semipresenciais, nos quais sua incorporação tenderia a ser maior, até o momento optou-se mais pelo crowdsourced. Isto é, antes de automatizar as respostas e correções, os alunos se ajudam uns aos outros ou o grupo, em conjunto, resolve e soluciona as dúvidas de maneira participativa, mas organizada”.

A professora da Unifesp Paula Carolei acredita que a inteligência artificial não deve ser usada para produzir respostas, e sim para embasar perguntas e gerar provocações. “É uma questão metodológica. Esses programas podem ser de grande ajuda para organizar dados, encontrar padrões, contradições etc. Mas infelizmente há sistemas de tutoria sendo criados para dar respostas muitas vezes redutoras, o que é uma pena diante do potencial da tecnologia”, afirma.

Já para Antonio Rodríguez, da Universidade Carlos III de Madri, é clara a transformação que eles trarão ao sistema. Para o aluno, “um edubot é um assistente educativo pessoal, que estará sempre ao lado do aprendiz. Sua presença será intensa, mesmo que invisível. De acordo com o nível educativo e o propósito, ele pode até ter um corpo, dirigido especialmente à afetividade que todo relacionamento necessita”. Do ponto de vista do professor, será como um “discípulo do mestre, assimilando sua sabedoria e a interpretando para depois responder às demandas do aluno. Assim, o trabalho do professor não fica nem reduzido nem encoberto pela incansável entrega do bot”.

Os robôs estão entre nós

Rastrear chatbots educacionais hoje é tarefa relativamente fácil, pois a área ainda está evoluindo, especialmente na educação básica. Segundo a designer conversacional Camila Canonici, uma das “experiências pioneiras e revolucionárias” foi o Robô Ed, da Petrobras, que até 2016 trocou 250 milhões de frases com internautas. “A partir de 2004, quando entrou no ar, ele foi aprendendo com as conversas e evoluiu até conseguir dar cerca de 40 mil respostas, indo de petróleo a Machado de Assis”.

Camila cita um projeto do governo do Ceará e outro de Moçambique como exemplos recentes da aplicação dessa tecnologia para fins educacionais. No caso do Ceará, o governo vai testar robôs da empresa Somai em salas de aula a partir de 2019. “A presença física dos robôs gera uma experiência relevante, o que contribui para a memória de longo prazo”. Já em Moçambique, a ambição do robô Dr. Wilson é ajudar a “salvar 20 mil crianças de até 5 anos nos próximos 36 meses”, por meio de conversas com “cidadãos comuns” sobre higiene, uso racional da água e esgoto.

Em São Paulo, a inteligência artificial está presente também como disciplina. No colégio Dante Alighieri, desde o início de 2018, há uma eletiva dedicada ao tema. O professor Rodrigo Assirati Dias, responsável pela cadeira, conta que a iniciativa faz parte da carga horária do novo Ensino Médio e foi um sucesso. “Foram 37 inscritos e 25 selecionados no primeiro semestre. Eles aplicaram conhecimentos de matemática e linguística, refletiram sobre questões éticas e tiveram de produzir um chatbot com um personagem histórico, além de escrever um artigo”, conta.

“Mas por que incorporar esse assunto ao currículo tão cedo?”, você talvez se pergunte. Rodrigo, que também dá aula no ensino superior, tem a resposta na ponta da língua. “A coordenação do colégio escolheu IA porque ela vai ser parte da vida de todo mundo no futuro. Mas a gente também ouviu os alunos, e eles se interessaram muito pelo tema”, explica.

STRYX, um chatbot que ajuda a estudar

Na noderna, o tema dos bots tem sido objeto de estudo há alguns anos. Em 2019, o trabalho vai dar seu primeiro fruto: o chatbot Stryx chega nas escolas com a missão de ajudar os alunos a estudar. “Detectamos em pesquisa que os alunos não querem mais estudar só com o livro, e que os professores acreditam que o principal desafio da profissão hoje é tornar a matéria mais atrativa e gerar interesse”, diz a coordenadora executiva de conteúdo digital, Ivonete Lucírio. 

Em resposta a esses problemas, o núcleo de inovação criou um estudo guiado em forma de diálogos, que incentiva a retomada dos conteúdos e atende o aluno no momento em que ele mais precisa: quando está sozinho, sem o apoio do professor nem dos colegas. “A pesquisa mostrou que, nessa hora, muitos recorrem ao celular, mas têm dificuldade para fazer uso produtivo do dispositivo”, conta Ivonete. “Acreditamos que, com a ajuda da Stryx – uma coruja bem-humorada e amigável, sem ser sabichona –, esse tempo de tela vai ser mais eficaz, e o aluno vai ganhar autonomia”, acrescenta ela.

A proposta não é substituir o professor nem o livro, muito menos esgotar os temas. Stryx é, em essência, um colega virtual. “Ela recupera o principal de cada assunto por meio de uma conversa, em uma linguagem próxima do aluno. Usamos inclusive elementos típicos das trocas de mensagem, como gifs, emoticons e abreviações, mas sem perder em nenhum momento o rigor da informação”, garante a coordenadora.

Para o aluno que tiver dúvida ou quiser se aprofundar, o chatbot sugere links de recursos confiáveis, como videoaulas e aplicativos relacionados a cada matéria. Alinhada com a BNCC, a novidade acompanha a reformulação do projeto Araribá Plus, coleção destinada para o Ensino Fundamental 2, e está disponível nas disciplinas de Português, Matemática, História, Geografia e Ciências.

Natalia Calvo propõe uma perspectiva fascinante em que os bots podem contribuir de forma decisiva para uma nova relação entre aprendizagem e erro. “O fato de uma máquina trabalhar com o erro de forma diferente diminui a pressão sobre o aprendizado, o que contribui para que ele aconteça de forma mais natural, como ocorre em contextos não formais”. Segundo Calvo, “os últimos avanços da neurociência demonstram que o cérebro necessita do erro para progredir. Um chatbot deve guiar e oferecer desafios que abram a mente das crianças e as ajudem a mergulhar em sua própria curiosidade”.

Despertar a curiosidade, o espírito crítico, emocionar-se. Todas essas questões podem se tornar mais fáceis se “o acesso à informação não passar obrigatoriamente pelo professor”, diz Marta Bonet. “Isso fará com que ele possa dedicar mais tempo a uma interação de maior qualidade com os alunos. Só que a melhora na qualidade da interação não acontecerá somente entre aluno e professor, mas também entre aluno e máquina. A interação será mais complexa, mais rica e mais natural”, completa.

Segundo Víctor Sánchez, as coisas poderiam ir muito além. Para ele, essas ferramentas vão desenvolver várias capacidades paulatinamente e acabarão resolvendo desde perguntas frequentes e triviais até dúvidas complexas e transcendentais. “Um chatbot poderá talvez se converter em uma espécie de psicólogo, detectando e tratando problemas como depressão, déficit de atenção ou até o bullying real e digital”. 

Esse potencial ressoa com a designer conversacional Camila Canonici, que desde 2001 acompanha os efeitos que os robôs têm, inclusive no público em idade escolar. “Depois que a Petrobras lançou o Robô Ed, em 2004, ele teve de passar a falar de problemas familiares com as crianças, pois esse tópico surgia direto nas conversas”.

Quarta parada: quando os chatbots serão realidade na educação? 

Essa pergunta talvez seja a mais fácil de responder, pois a verdade é que já há chatbots disponíveis para uso educacional, tanto no Brasil quanto no exterior. Víctor Sánchez lembra que “hoje já temos o IBM Watson atuando como um professor assistente em fóruns de universidades americanas”. Na próxima década, segundo ele, poderemos ver “versões avançadas, difíceis de serem diferenciadas de professores reais, especialmente ao conversar sobre materiais e disciplinas específicas”.

Para Agustín Cuenca, fundador e CEO da empresa ASPGems, o fenômeno “acontecerá mais tarde do que acredito (5 ou 10 anos), mas antes do que calculam aqueles que pensam que ele não vai acontecer”.

Além do quando, Antonio Rodríguez acha que será muito relevante o como. “Desorientação e resistências serão inevitáveis no caminho. Deverá ser superado o preconceito de que isso significa automatizar a educação, de que a inteligência artificial coloca a função do professor em segundo plano, ou de que ela vai trazer um controle excessivo ao acompanhar e avaliar tão de perto a aprendizagem do aluno”.

Na mesma linha, Marta Bonet acredita que essas ferramentas terão espaço desde que o ser humano entenda que máquinas têm a função de melhorar a qualidade de vida e não a de substituir outras coisas. “O ser humano é resistente a mudanças, mas a tecnologia tem colocado muitos paradigmas de pernas para o ar. Por isso, em relação à chegada da inteligência artificial, torna-se cada vez mais urgente trabalhar o espírito crítico dos alunos para que possam entender e gerenciar essa importante mudança”, explica.

O cenário é mesmo inquietante e, por ora, a única certeza talvez seja a de que, com a inteligência artificial, a transformação das formas e das relações será significativa. Por enquanto, vale continuarmos atentos às conversas das crianças com a Siri…

Fernando Herranz  é responsável pelo Departamento de Inovação da Santillana na Espanha.

Para saber mais

  • Blog Toyoutome, Cuando chatear signifique aprender… y enseñar: mod.lk/1wpfj 
  • Robô Ed Petrobrás: www.ed.conpet.gov.br/br
  • Projeto Araribá Plus / Stryx: mod.lk/V44F2
  • Relatório IBM – Possibilidades da inteligência artificial na educação: mod.lk/pesqibm

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ESPECIAL EDUCAÇÃO 4.0|02 Construir, desconstruir e reconstruir a aprendizagem

ESPECIAL EDUCAÇÃO 4.0|02 Construir, desconstruir e reconstruir a aprendizagem

Texto: Débora Garofalo | Ilustração: Fabrízio Lenci

Texto: Débora Garofalo | Ilustração: Fabrízio Lenci

A interação com o outro é o ponto de partida para que os alunos possam construir, desconstruir e reconstruir a aprendizagem, em uma espiral de conhecimento, seja com o objeto de estudo ou com o exercício da docência. A mediação pedagógica assume novo enfoque, no qual o professor exerce o papel de orientador e incentivador, tornando-se parceiro do aluno e instigando-o a refletir e compartilhar. É importante ter em mente que aprenderemos juntos em uma aprendizagem colaborativa. Os professores são mediadores que constroem comunidades em torno do aprendizado, promovendo o talento e as habilidades de seus alunos.

As relações socioemocionais e interpessoais possibilitam elaboração e reelaboração por parte de professores e alunos. Ao redefinir o papel do professor, os processos educacionais têm como pilar o trabalho colaborativo. Para Marta Relvas, bióloga, Dra. e Ms. em Psicanálise, neuroanatomista, neurofisiologista, psicopedagoga e especialista em Bioética, ao utilizar ferramentas tecnológicas, o professor consegue ativar o cérebro do estudante por meio de “rotas alternativas” para produção de novas conexões neuronais e aquisição do aprendizado. O ato de fazer estabelece e fortalece as interligações neurais, formando o que a neurobiologia denomina de “teia neuronal”.

O professor, na Educação 4.0, deve ter percepção e flexibilidade do trabalho docente, assumindo diferentes papéis na aprendizagem: aprendiz, mediador, orientador e pesquisador na busca de novas práticas. O docente precisa criar circunstâncias propícias às exigências desse novo ambiente de aprendizagem, assim como propor e mediar ações que levem à cognição do aluno. Para isso, é preciso ter metas e objetivos bem definidos, compreendendo o contexto histórico sociocultural e as dificuldades do aluno. Como contraponto, o poder público precisa entender a prática docente como uma atividade transformadora, cujo papel é mediar o conhecimento.

O que esperar da educação 4.0?

O primeiro passo é integrar a escola com o uso das tecnologias e com o currículo, fomentar conversas com as diferentes áreas do conhecimento, explorar as metodologias ativas para trabalhar e desenvolver projetos que trabalhem a investigação, a resolução de problemas, a produção de narrativas digitais e o desenvolvimento do aprender a fazer, transformando ferramentas digitais em linguagem. O processo da Educação 4.0 não é algo pronto e não existe uma receita; está em criação constante. A seguir, vamos conhecer mais sobre algumas estratégias que têm funcionado.

Metodologias ativas

As mudanças propostas pelas metodologias ativas propõem transmutação de papéis: o aluno é protagonista, tendo participação ativa no processo; e o professor é o mediador do processo, em que o fazer é estratégia principal para alcançar os objetivos pedagógicos. Um muito comum, que ganha destaque, é a aprendizagem baseada em projetos, o Problem Basead Learning (PBL).

Cultura maker

Os movimentos realizados nas escolas e os chamados makerspaces estão fortalecendo uma educação pautada em criatividade, usando diversos recursos e contando com um ambiente propício à experimentação. Estudos realizados por pesquisadores da Universidade de Stanford (EUA) demostram que estudantes que vivenciaram a aprendizagem mão na massa tiveram um desempenho 30% mais alto do que aqueles que seguiram o aprendizado de maneira convencional.

Equipamentos são importantes, mas é necessário deixar claro que disponibilizar altos recursos tecnológicos e ambientes virtuais de aprendizagem não garante aprendizagem efetiva; é essencial que eles venham acompanhados de práticas pedagógicas que possibilitam experienciar vivências significativas, pautadas em uma educação humanizadora e integral. A abordagem ainda é um desafio para a educação, principalmente para as escolas públicas, mas não é impossível.

Espaços de aprendizagem

Não é preciso ter um makerspace para tornar a sala de aula um ambiente mão na massa. Reorganizar o mobiliário e incluir, a baixos custos, bancadas, reaproveitando portas e prateleiras, e acrescentar cavaletes e ferramentas, já proporciona um lugar de trabalho participativo e colaborativo entre os estudantes. No Especial Mão na Massa do portal Porvir, você pode consultar um simulador maker, com uma lista de equipamentos, custos e sugestões de atividades pedagógicas para realizar com alunos do Ensino Fundamental e Médio. Para construir esse espaço, é possível envolver o entorno e pedir doações de materiais não utilizados em casa, integrando a escola e a comunidade. 

Situações de aprendizagem

Favoreça estratégias que contribuam para o desenvolvimento de projetos. Uma das propostas é trabalhar com questões norteadoras, que agucem a criatividade e despertem para explorar coisas novas, permitindo testar, errar, refazer, reavaliar, aprendendo a fazer, através de um roteiro de trabalho.

Comece com projetos simples que fortaleçam a empatia, o espírito lúdico, a criatividade, a vivência e a autonomia. Leve para a sala de aula materiais não estruturados e recicláveis como papelão, plásticos, potes, tampinhas, garrafas PETs, materiais eletrônicos como Leds, resistores, baterias, motores de 3V, 9V, garras de jacarés, conectores, fios, suportes de baterias, produzindo projetos mão na massa.

Programação

Nas aulas, os alunos podem codificar e desvendar o Scratch, um software on-line e off-line, livre e gratuito, que funciona de maneira fácil e intuitiva, através de blocos de arrastar, montar circuitos elétricos, incorporando o pensamento maker. Como professor, você pode montar fichas de observação e investigação para os estudantes registrarem o conhecimento. A partir destas fichas, você pode realizar intervenções e apontar caminhos necessários ao processo.

Todas essas habilidades são importantes para resgatar o encantamento das aulas e desenvolver o espírito criativo e inovador, e funcionam para as todas as áreas do conhecimento. É preciso explorar novos recursos e ferramentas, mediando o espaço entre o aluno e a informação, de forma participativa e interativa, próxima da realidade no processo de construção e reconstrução do seu conhecimento ao trabalhar com as diversas facetas do processo de aprendizagem. Porque o futuro já chegou.

Débora Garofalo é professora da rede pública de Ensino de São Paulo, Formada em Letras e Pedagogia, mestranda em Educação, colunista de Tecnologias para o site da Nova Escola.

Para saber mais: Portal QEdu | Porvir, Especial Mão na Massa

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